19
de
fevereiro
A verdade nua do carnaval
Carnaval no Rio é escola de samba, apesar do esforço da Banda de Ipanema, Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor e tantos outros blocos de rua. A imprensa registra a saída de cada um, a empresa de limpeza urbana divulga as toneladas de lixo deixadas, a companhia de trânsito orienta motoristas no percurso, mas tudo gira mesmo em torno dos preparativos das escolas de samba para o grande desfile do chamado Grupo Especial, onde estão as principais atrações.
Como trabalho em televisão, corremos atrás dos barracões para a transmissão de flashes ao vivo durante a programação, dias antes das escolas ganharem o asfalto recém-pintado da Sapucaí. A três dias dos desfiles, só quatro escolas tinham tudo pronto para entrar na avenida: Beija-Flor, Salgueiro, Vila Isabel e Grande Rio. As outras oito corriam alucinadas contra o relógio, não tinham nem tempo nem disposição de abrir seu barracão para câmeras e mostrar o atraso ao resto do país.
Mas um detalhe que desconhecia, até porque este é o primeiro carnaval que passo no Rio depois de décadas em Brasília, é que mesmo nas escolas mais organizadas é uma dificuldade gravar boas imagens no barracão, porque o que as tevês querem mostrar (e o telespectador quer ver) são aquelas passistas esculturais, as madrinhas disso e daquilo, e as musas que inventaram para dar lugar a quem não batizou nada, não é destaque em nenhum carro alegórico, mas tem umas qualidades visíveis a olho nu.
Quando a produção da tevê consegue um barracão e a equipe chega para a gravação, as mulheres são empacotadoras da Casa Bahia, diaristas da Tijuca e manicures de Copacabana. Um colega maldoso diz que todas têm o calcanhar grosso, e a mais instruída e culta acha que Dr. Scholl é o inventor da bomba atômica. As gostosas só aparecem na hora de mandar beijinho pra galera e fazer poses sensuais para fotógrafos e cinegrafistas.

