Trabalhei na assessoria de comunicação do Palácio Guanabara durante os dois anos iniciais do primeiro governo Leonel Brizola, entre 1983 e 1985, sob o comando de Marta Alencar, e confirmo boatos sobre acertos com bicheiros para a movimentação financeira passar para o Banerj. Boatos, nada mais. Sei também que a Polícia Militar recebeu ordem expressa para evitar tiroteios em favelas, o que obviamente pode ter favorecido o tráfico de drogas. Entretanto, apontar o governo Brizola como responsável pelo surgimento do Comando Vermelho ou outras facções criminosas é desconhecer o contexto daqueles tempos. Primeiro, os criminosos passaram a se organizar dentro dos presídios depois da convivência com os presos políticos. Segundo, a diretriz de evitar tiroteios em favelas era em defesa da população dos morros. Terceiro, nunca se provou nada contra Leonel Brizola, seja através do SNI, seja dos centros de informação dos ministérios militares. E tem mais: um relatório da inteligência militar diz que Brizola desviou dinheiro de propina para o programa educacional do seu governo, os famosos Cieps. Não é verdade, mas chega a soar como defesa, diante do que se vê por aí nos dias de hoje.
31
de
março
Há 25 anos…
30
de
março
Caranguejada
Gravação telefônica da Polícia Federal registra o seguinte aviso de um lobista muito louco: "Os caranguejos chegaram. Eu estou levando 40 mil caranguejos aí pra você".
27
de
março
Olhos azuis são ciúmes…
Se a culpa é dos olhos azuis eu não sei, mas Lula acertou na mosca, mais uma vez, e o primeiro ministro Gordon Brown não deve ter ficado constrangido, como gostariam a imprensa e os comentaristas da CBN. Afinal, a frase não foi endereçada a ele, mas sim à banca internacional e seus sócios, que passaram a vida inteira nos ensinando a gerenciar dinheiro e acabaram no buraco dessa crise. E tem mais: o homem tá certo, nunca vi banqueiro negão mandando na economia internacional.
27
de
março
3ª guerra mundial
A foto de Euzivaldo Queiroz, de A Crítica, mostra técnicos da Aeronáutica examinando parte que caiu do motor do cargueiro americano sobre uma casa em Manaus na madrugada de quinta-feira. Ao todo foram 21 casas afetadas, mas ninguém se feriu. Uma dona de casa ouvida pelo Jornal da Band, disse "Eu achava que era a terceira guerra mundial e que a minha casa tinha sido atingida por uma bomba". Quanta imaginação!
26
de
março
Mania de grandeza
A série de reportagens no Globo assinadas por Bernardo Mello Franco e Evandro Éboli sobre as atas das reuniões do Conselho de Segurança Nacional depois do golpe militar de 1964 é uma das melhores coisas que se leem nos jornais do dia. Hoje mesmo, sob o título "Ditadura brasileira queria desestabilizar Fidel", a dupla de repórteres da sucursal brasiliense do jornal informa que na reunião do conselho menos de um mês depois do golpe, a primeira dos militares no poder e cuja pauta principal era o rompimento de relações diplomáticas com Cuba, o chanceler Vasco Leitão da Cunha, velho reaça, saiu-se com essa:
"O governo brasileiro tem razões de sobra para romper sem mais delongas com o governo de Havana. Do ponto de vista político e psicológico, será um golpe extremamente forte no moral do atual governo de Cuba. O Brasil dará a outros países do mundo a advertência de que não tolerará interferência nem ação comunista em seu território e não pactuará com o comunismo no hemisfério".
O tom geral na reunião foi o mesmo, até porque todos os outros membros do Conselho de Segurança Nacional eram milicos, e a preocupação geral era com a crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Mas a contundência do chanceler dá a dimensão da megalomania que dominaria o regime daí em diante.
26
de
março
Mundo cão
À minha frente, na farmácia, a senhora puxava a coisa mais engenhosa que vi até agora em Copacabana: uma dessas cadeiras de automóvel para criança, sobre duas rodas, puxada como mala de rodinha que o pessoal de bordo popularizou nos aeroportos da vida e que hoje todo viajante tem. Na cadeirinha, sobre um pano branco com pequenas estampas de motivos caninos, seu cachorro, placidamente acomodado e observando os produtos expostos à altura do olhar desinteressado. Não era um vira-lata qualquer, via-se pela distinção, e tinha o ar nobre de galgo espanhol, comprido e magro, pêlo marrom claro muito curto, a boca fechada, sem baba. Parecia mais composto do que a dona com cara de maus bofes.
Não era o único cão na farmácia: um senhor no caixa carregava o seu no braço, um exemplar dessas raças tão comuns que só quem conhece bem sabe distinguir. Embora também devesse ter o seu pedigree, era um tipo vulgar de cara amassada, olhos por trás de uma franja rala e irregular e a língua pendente lambendo a tarde. Antipatizo com qualquer animal de língua para fora, parece desaforo, falta de educação, até debilidade mental. Daí a não gostar de cachorros é um pulo, porque a maioria é assim. Lá em Vila Isabel, onde estava até alugar o apartamento na Prado Júnior, não via muitos deles, se escondiam atrás das grades e dos muros e latiam, raivosos, quando passava na calçada. Até vi um aviso interessante num portão: “Cuidado! Cão anti-social”.
Já aqui são todos de uma sociabilidade à flor do pêlo. Tanto que começo a rever minha antipatia, vendo-os pelas ruas presos à coleira, vários calçados com sapatos de pano, alguns em arremedos de roupas – e estes, em particular, se parecem mais ainda com seus donos do que os outros. Todo mundo conhece a teoria segundo a qual o tempo de convívio torna os cães cada vez mais parecidos com seus donos, não é mesmo? Mas eu vou além: não acho nada difícil encontrar num canil um cachorro com a cara do Heráclito Fortes, por exemplo. Ou do Ricardo Boechat. Da Juliana Paes. Da Renata Sorrah, incluindo o cabelo. Do Sérgio Cabral (pai e filho). Ou com a minha ou a sua cara.
O que ainda não vi é um cachorro com a cara de qualquer dos mendigos, ou moradores de rua, ou meninos e meninas que perambulam por Copacabana, um contingente respeitável mas que, paradoxalmente, não merece o respeito de quem cruza seu caminho todos os dias e noites. Enquanto andava da farmácia para casa cantarolei baixinho, lembrando o Dussek, que também mora por aqui:
“Troque seu cachorro por uma criança pobre/sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre/deixe na história de sua vida uma notícia nobre (…) Seja mais humano, seja menos canino/dê güarita pro cachorro, mas também dê pro menino/senão um dia desse você vai amanhecer latindo, uau, uau, uau”.
24
de
março
Deus me livre!
Camiseta encomendada por soldados israelenses na Faixa de Gaza, no corpo de um modelo. O texto é claro: "1 tiro 2 mortes", embaixo do desenho de uma palestina grávida no alvo. Autoridades israelenses viram mau gosto na iniciativa, mas eu vejo o absurdo de um povo perseguido desde o Velho Testamento, vítima da "catástrofe" na segunda guerra mundial, exibir a face genocida em sua manifestação mais primária.
22
de
março
Sábado de manhã
Reparei, na busca por um bombeiro hidráulico que desse jeito no chafariz particular em que se havia transformado minha torneira da cozinha, na quantidade de pessoas em cadeiras de rodas, carrinhos a motor, de bengalas comuns, bengalas canadenses, muletas de madeira, de metal, pobres, remediadas ou ricas, todas se cruzando em ambas as calçadas da Nossa Senhora de Copacabana no exíguo trecho de um quarteirão entre a Prado Júnior e a Belfort Roxo.
Era uma manhã radiante de sol, o primeiro sol do outono, a estação identificada com a velhice, o fim próximo. “No outono da vida”, diz-se de quem tem menos anos pela frente do que para trás, e talvez por esta singela razão a rua estivesse tão exuberante nestes aparelhos que ajudam as pessoas a se locomover entre as ditas normais.
Digo isso porque o conceito de normalidade é cada dia mais relativo, ambíguo, mais politicamente correto. Nos tempos da minha adolescência e juventude – não faz tantos outonos assim, creio –, não havia eufemismos para portadores de necessidades especiais: coxo, cego, manco, perneta, aleijado, surdo, mudo, gago, anão…cada defeito tinha nome próprio e endereço, a esquina onde fazia ponto para esmolar, a casa onde morava, todos sabiam. “É dobrando a esquina do ceguinho”, “Logo depois da casa do mudinho” e por aí iam as indicações.
Encontrado o bombeiro hidráulico, Edilson, na Viveiros de Castro, ao lado da padaria da esquina, comentei enquanto o levava para conhecer meu chafariz doméstico, “Sabe o que impressiona aqui em Copacabana? A quantidade de cadeiras de rodas, muletas, bengalas nas ruas”. “É muito velho”, ele explicou. “É, mas tem muito velho correndo no calçadão, muita velhinha tomando chope com o cachorrinho no colo. Tô falando é dos prejudicados…é gente demais, parece até que teve uma guerra”. Edilson passeou o olhar pela paisagem e justo naquele instante um sujeito de cadeira de rodas conversava com outro de muleta na esquina, atrapalhando a passagem de um terceiro que vinha da Nossa Senhora de Copacabana apoiado em duas bengalas canadenses.
Não disse nada ao Edilson porque ele não entenderia, mas em vista do que constatei neste curto e forçado passeio, acho que o funcionário do Detran de Brasília saiu direto daqui para delimitar tantas vagas para idosos e – vá lá! – cadeirantes nos estacionamentos públicos das superquadras do Plano Piloto.
19
de
março
A barata no bico da galinha
“Estou me sentindo que nem barata em bico de galinha”. A frase, verdadeira confissão de desconforto, foi dita pelo presidente do Senado, José Sarney, o inefável, inexprimível e inexpressável representante do Amapá, autor do deslocamento de funcionários da segurança para São Luís, a pretexto de protegê-lo da sanha assassina de algum leitor inconformado com sua prosa literária. A imagem da barata no bico da penosa provoca a imaginação: baratão enorme, de antenas compridas e irrequietas, de asas marrons lustrosas, de patas como serras, de cabeça pequena e calva…e de bigodes abundantes. Sim, um baratão bigodudo, diferente das outras de sua espécie, mirradas, maranhenses, quase formigas em sua pequenez.
Sentir-se desconfortável não deve ser novidade para Sarney, se até mesmo seu nome é uma invenção das baratinhas já mortas e sepultadas, contemporâneas de seu avô empregado dos ingleses da ferrovia que rasgava as terras do estado, jocosamente apelidado “Sir Ney”. O baratão bigodudo se chama, de fato, José de Ribamar como os incontáveis xarás perdidos e esquecidos por todo o Norte e Nordeste. Sarney deve ter se sentido barata em bico de galinha em 1985, quando a morte de Tancredo Neves o projetou ao Palácio do Planalto e ele teve de reorganizar o ministério das costuras políticas em torno do escolhido pelo colégio eleitoral. Em outras ocasiões, “talqualmente”, deve ter se sentido “espremido pelas circunstâncias”, mas sempre se houve a contento, tanto que aí está, lépido e fagueiro aos 78 anos de idade, reduzindo o número de diretores do Senado, e aí está outra razão para se sentir barata em bico de galinha.
Como sabe qualquer detentor de gratificação no serviço público, é duro mexer no salário dos companheiros, mesmo quando não são propriamente colegas, mas subalternos. Parlamentares em geral têm certo pudor em retirar o extra dos vencimentos de alguém, mas os senadores levam tão a sério este pudor que fazem questão de não ver o que acontece ao redor. A prova é o espanto geral com algumas diretorias criadas com o fim exclusivo de engordar o salário dos diretores. E os senadores não sabiam de nada, nem desconfiavam. Paga-se hora extra em tempo de recesso e ninguém tinha conhecimento, não se fiscaliza, como de resto não se fiscaliza nada que não saia na mídia por causa de disputas internas pelo poder na burocracia no Senado.
Sentir-se como barata em bico de galinha é imagem forte, eloquente, quem sabe definitiva. Até onde posso imaginar, a sorte da barata está selada, é o fim. A não ser que a galinha seja de histórias infantis, bonachona e conversadeira. Não me consta que haja desta espécie em Pinheiro, onde Sarney nasceu, ou em qualquer parte do Maranhão. Lá, galinha é ave ciscante, de bico duro e nenhuma prosa, e quando agarra uma barata é à vera e não à brinca. Assim, o senador talvez esteja sinalizando uma saída estratégica, uma viagem à França, quando muito não seja porque não tem idade nem necessidade de pagar esses micos infamantes. Depois da onda, a galinha longe, o baratão volta para terminar o mandato que tanto ardil lhe custou.





