22
de
março
Sábado de manhã
Reparei, na busca por um bombeiro hidráulico que desse jeito no chafariz particular em que se havia transformado minha torneira da cozinha, na quantidade de pessoas em cadeiras de rodas, carrinhos a motor, de bengalas comuns, bengalas canadenses, muletas de madeira, de metal, pobres, remediadas ou ricas, todas se cruzando em ambas as calçadas da Nossa Senhora de Copacabana no exíguo trecho de um quarteirão entre a Prado Júnior e a Belfort Roxo.
Era uma manhã radiante de sol, o primeiro sol do outono, a estação identificada com a velhice, o fim próximo. “No outono da vida”, diz-se de quem tem menos anos pela frente do que para trás, e talvez por esta singela razão a rua estivesse tão exuberante nestes aparelhos que ajudam as pessoas a se locomover entre as ditas normais.
Digo isso porque o conceito de normalidade é cada dia mais relativo, ambíguo, mais politicamente correto. Nos tempos da minha adolescência e juventude – não faz tantos outonos assim, creio –, não havia eufemismos para portadores de necessidades especiais: coxo, cego, manco, perneta, aleijado, surdo, mudo, gago, anão…cada defeito tinha nome próprio e endereço, a esquina onde fazia ponto para esmolar, a casa onde morava, todos sabiam. “É dobrando a esquina do ceguinho”, “Logo depois da casa do mudinho” e por aí iam as indicações.
Encontrado o bombeiro hidráulico, Edilson, na Viveiros de Castro, ao lado da padaria da esquina, comentei enquanto o levava para conhecer meu chafariz doméstico, “Sabe o que impressiona aqui em Copacabana? A quantidade de cadeiras de rodas, muletas, bengalas nas ruas”. “É muito velho”, ele explicou. “É, mas tem muito velho correndo no calçadão, muita velhinha tomando chope com o cachorrinho no colo. Tô falando é dos prejudicados…é gente demais, parece até que teve uma guerra”. Edilson passeou o olhar pela paisagem e justo naquele instante um sujeito de cadeira de rodas conversava com outro de muleta na esquina, atrapalhando a passagem de um terceiro que vinha da Nossa Senhora de Copacabana apoiado em duas bengalas canadenses.
Não disse nada ao Edilson porque ele não entenderia, mas em vista do que constatei neste curto e forçado passeio, acho que o funcionário do Detran de Brasília saiu direto daqui para delimitar tantas vagas para idosos e – vá lá! – cadeirantes nos estacionamentos públicos das superquadras do Plano Piloto.

