Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

26

de
março

Mundo cão

À minha frente, na farmácia, a senhora puxava a coisa mais engenhosa que vi até agora em Copacabana: uma dessas cadeiras de automóvel para criança, sobre duas rodas, puxada como mala de rodinha que o pessoal de bordo popularizou nos aeroportos da vida e que hoje todo viajante tem. Na cadeirinha, sobre um pano branco com pequenas estampas de motivos caninos, seu cachorro, placidamente acomodado e observando os produtos expostos à altura do olhar desinteressado. Não era um vira-lata qualquer, via-se pela distinção, e tinha o ar nobre de galgo espanhol, comprido e magro, pêlo marrom claro muito curto, a boca fechada, sem baba. Parecia mais composto do que a dona com cara de maus bofes.


Não era o único cão na farmácia: um senhor no caixa carregava o seu no braço, um exemplar dessas raças tão comuns que só quem conhece bem sabe distinguir. Embora também devesse ter o seu pedigree, era um tipo vulgar de cara amassada, olhos por trás de uma franja rala e irregular e a língua pendente lambendo a tarde. Antipatizo com qualquer animal de língua para fora, parece desaforo, falta de educação, até debilidade mental. Daí a não gostar de cachorros é um pulo, porque a maioria é assim. Lá em Vila Isabel, onde estava até alugar o apartamento na Prado Júnior, não via muitos deles, se escondiam atrás das grades e dos muros e latiam, raivosos, quando passava na calçada. Até vi um aviso interessante num portão: “Cuidado! Cão anti-social”.


Já aqui são todos de uma sociabilidade à flor do pêlo. Tanto que começo a rever minha antipatia, vendo-os pelas ruas presos à coleira, vários calçados com sapatos de pano, alguns em arremedos de roupas – e estes, em particular, se parecem mais ainda com seus donos do que os outros. Todo mundo conhece a teoria segundo a qual o tempo de convívio torna os cães cada vez mais parecidos com seus donos, não é mesmo? Mas eu vou além: não acho nada difícil encontrar num canil um cachorro com a cara do Heráclito Fortes, por exemplo. Ou do Ricardo Boechat. Da Juliana Paes. Da Renata Sorrah, incluindo o cabelo. Do Sérgio Cabral (pai e filho). Ou com a minha ou a sua cara.


O que ainda não vi é um cachorro com a cara de qualquer dos mendigos, ou moradores de rua, ou meninos e meninas que perambulam por Copacabana, um contingente respeitável mas que, paradoxalmente, não merece o respeito de quem cruza seu caminho todos os dias e noites. Enquanto andava da farmácia para casa cantarolei baixinho, lembrando o Dussek, que também mora por aqui:

 

“Troque seu cachorro por uma criança pobre/sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre/deixe na história de sua vida uma notícia nobre (…) Seja mais humano, seja menos canino/dê güarita pro cachorro, mas também dê pro menino/senão um dia desse você vai amanhecer latindo, uau, uau, uau”.

Arquivado em: Cotidiano I

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