Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

18

de
março

Olha o nível…

Denúncia do dia: o senador Tião Viana, petista do Acre, mandou a filha levar na sua viagem de 15 dias ao México um dos telefones celulares da vice-presidência do Senado, que ocupou até pouco tempo atrás. A justificativa é de uma candura sem par: "Era a primeira vez que minha filha viajava sozinha, por isso lhe emprestei o celular". Ah, se todos nós, pais zelosos, pudéssemos fazer o mesmo, emprestar até o que não é nosso em nome da tranquilidade pessoal! Tião Viana vislumbra na divulgação do caso o dedo de José Sarney, que o derrotou na disputa pela presidência, no mês passado, e que lhe atribui a onda de denúncias que abalam o Senado desde então. Seja como for, é este o nível da política que se pratica por lá.

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17

de
março

Jango

AS NOTÍCIAS SOBRE O NEPOTISMO TERCEIRIZADO, PASSAGENS AÉREAS DA COTA PESSOAL DE SENADORES PARA AMIGOS, APARTAMENTOS FUNCIONAIS OCUPADOS POR PARENTES DE DIRETORES…TUDO ISTO NÃO PASSA DO VELHO PATRIMONIALISMO CARACTERÍSTICO DAS RELAÇÕES DAS ELITES COM O ESTADO BRASILEIRO. POLÍTICOS E EMPRESÁRIOS SÃO DONOS DE GENTE, TERRAS, PRÉDIOS, BAIRROS, CIDADES, ESTADOS, O QUE ESTIVER À MÃO, DISPONÍVEL OU NÃO. UMA VEZ, EM CONVERSA COM CIRO GOMES SOBRE ESSA DEFORMAÇÃO BRASILEIRA, FERNANDO HENRIQUE CARDOSO ADMITIU A IMPOSSIBILIDADE DE ACABAR COM O PATRIMONIALISMO, E ACRESCENTOU: "O ÚNICO QUE TENTOU, FOI POSTO PRA FORA". MAIS PRECISAMENTE, EM 31 DE MARÇO DE 1964. 

13

de
março

Copacabana engana?

 

Desde a terça-feira passada sou mais um feliz morador de Copacabana, bem no comecinho, ali na Prado Júnior, tida e havida como mercado do sexo a céu aberto. Não sei se é fato, embora tenha tomado uns chopes no Mab’s, o bar na esquina da Atlântica onde quatro em cinco frequentadoras são garotas de programa e em proporção semelhante os fregueses são turistas nacionais e estrangeiros. Não sei, nem me interessa saber, porque meu bairro é outro, solar, calçadão cheio de gente caminhando desde as seis e meia da manhã, minhas incursões noturnas não chegam às dez horas, de modo que podem me perguntar sobre a salada de frutas do Hortifruti, a padaria, o sanduíche Cervantes, a lavanderia automática, o frango assado da esquina da Viveiros de Castro e a Antarctica Original do Bar do Pedrinho, que pertence ao grupo da Churrascaria Carretão e serve a picanha mais macia e saborosa do pedaço.


A nova rotina que estou tentando me impor é a seguinte: acordar às sete, andar os setenta passos que separam meu prédio, o Panambi, do calçadão, atravessar a Atlântica, andar pelo menos uma hora, voltar para casa e me arrumar para o trabalho. Assim, toda manhã ensolarada passo pela frente do Copacabana Palace, pelos quiosques junto à areia, inclusive o Bar Luiz, onde Delaine e Chiquinho se responsabilizam pelo chope Brahma honestíssimo, em horário mais quente, é claro. Na caminhada de ida, à esquerda fica o horizonte onde a terra faz a curva, no meio do marzão besta. Na volta, a paisagem fica à direita, acrescida dos vendedores que começam a se instalar no piso de pedras portuguesas com cangas, camisetas, bonés, bermudas. Nunca vi, até hoje, vendedor de guarda-chuva. Vez por outra um navio de cruzeiro singra bem além da rebentação e faz lembrar, não sei por que, os portugueses e as caravelas ancestrais.


Pelo asfalto, carros e ônibus seguem para a cidade, apressados, mas sem buzinas. O cenário inspira um silêncio que contagia motoristas e passageiros, a um tempo testemunhas e cúmplices daquele vaivém de pernas e bicicletas. Toda manhã o cenário me remete ao começo da década de 80, quando percorria a Atlântica a caminho do trabalho na Presidente Vargas, metido num terno mais implacável que impecável, ainda mais porque não era tão comum quanto hoje o transporte com ar condicionado. Olhava pela janela sem inveja, e sim com alguma reverência por aquela pequena multidão desobrigada de enfrentar a labuta, como eu, na contramão do lazer.


Os paulistas, que sempre gostaram de atribuir ao carioca certa aversão ao trabalho, veem nas praias cheias a comprovação desta deslavada calúnia. Se considerarmos a população total do Rio de mais de seis milhões de felizardos, dos quais digamos que um terço apenas trabalhe diariamente, teremos que mais de cem mil, em tese, estão de férias a cada mês. Isso sem falar nos estudantes, turistas e nos trabalhadores da praia, além dos que não precisam estar no batente às oito. E, claro, sem esquecer os idosos que foram o tema central de Carla Camurati no filme “Copacabana”, como a senhora que entrou no elevador do Panambi, manhã cedinho, e me saudou com um “Bom dia, jovem”. Bendita anciã.

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6

de
março

www.portasabertas.org.br

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6

de
março

Atrasos e saladas

Quando tomou posse no Planalto, em abril de 1985, com a morte de Tancredo Neves, Sarney era expressão menor no cenário nacional, embora tivesse presidido o PDS, partido de sustentação da ditadura militar, sucedâneo da Arena. Herdou o ministério acertado por Tancredo com representantes de diversas correntes políticas, entre elas o PDT de Leonel Brizola, que emplacou o pernambucano Fernando Lyra na Justiça. Acreditando que os tempos seriam mesmo outros e os ares da Nova República mais amenos e agradáveis às mentes e aos pulmões democráticos, Lyra classificou o presidente como “a vanguarda do atraso”, e assim pulou fora do governo.


Nos dias que correm, outro pernambucano, Jarbas Vasconcelos, diz que seu partido, o PMDB, não quer nenhuma CPI sobre os fundos de pensão das estatais, apenas chantageia o governo porque teve frustrada a tentativa de se infiltrar no Real Grandeza, o fundo dos funcionários de Furnas, da órbita do ministro Edison Lobão – outro representante da “vanguarda do atraso”. Ex-repórter em Brasília, Lobão chegou a deputado federal com a bênção do general Ernesto Geisel, pela Arena, nos anos 70, e a partir daí se firmou como liderança política no Maranhão, o feudo de José Sarney.


Jarbas Vasconcelos viu o episódio do Real Grandeza como confirmação de suas palavras a Otávio Costa, nas páginas amarelas da Veja: o PMDB gosta mesmo é de corrupção. Disso todo mundo estava careca de saber, e nem é um privilégio do partido que outrora combateu a ditadura. O que a gente não sabia é que um dia alguém da estatura moral do Jarbas seria capaz, de forma tão desassombrada, de botar a boca no trombone, o dedo na ferida e o bloco na rua.


O revide do PMDB ao senador, rápido e eficaz, foi seu afastamento da Comissão de Constituição e Justiça, sem dó nem piedade, pelo novo líder da bancada. Foi a segunda confirmação das palavras de Jarbas à Veja: o PMDB quer os cargos para se dar bem. Este líder, Renan Calheiros, é um dos alvos preferenciais de Jarbas, assim como o presidente do Senado, José Sarney, que teria mandado levantar denúncias contra o pernambucano, tentando puxá-lo para o lamaçal.


A mais recente manobra do PMDB foi entregar a presidência da Comissão de Infraestrutura ao senador Fernando Collor, fugaz vanguarda e hoje só atraso na política nacional. Esta comissão é responsável pela análise dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento, filho dileto da candidata petista à sucessão presidencial. Renan, atraso do atraso da política alagoana e brasileira, foi o condutor do conterrâneo ao cargo para o qual o PT, seguindo o princípio da proporcionalidade entre os partidos na distribuição das comissões, havia escolhido a senadora Ideli Salvati.


Destilando a habitual lucidez, o presidente Lula, a quem mais interessa o PAC e a candidatura Dilma Rousseff, tentou jogar água fria na fervura da indignação com a volta de Collor: “O PT teria direito se a proporcionalidade tivesse sido respeitada desde o começo. Não foi. Vamos fazer disso uma boa salada”. Sem discordar de sua excelência, queria saber se ele se refere a uma nova salada, ou à que já está na mesa no Senado.

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