
Desde a terça-feira passada sou mais um feliz morador de Copacabana, bem no comecinho, ali na Prado Júnior, tida e havida como mercado do sexo a céu aberto. Não sei se é fato, embora tenha tomado uns chopes no Mab’s, o bar na esquina da Atlântica onde quatro em cinco frequentadoras são garotas de programa e em proporção semelhante os fregueses são turistas nacionais e estrangeiros. Não sei, nem me interessa saber, porque meu bairro é outro, solar, calçadão cheio de gente caminhando desde as seis e meia da manhã, minhas incursões noturnas não chegam às dez horas, de modo que podem me perguntar sobre a salada de frutas do Hortifruti, a padaria, o sanduíche Cervantes, a lavanderia automática, o frango assado da esquina da Viveiros de Castro e a Antarctica Original do Bar do Pedrinho, que pertence ao grupo da Churrascaria Carretão e serve a picanha mais macia e saborosa do pedaço.
A nova rotina que estou tentando me impor é a seguinte: acordar às sete, andar os setenta passos que separam meu prédio, o Panambi, do calçadão, atravessar a Atlântica, andar pelo menos uma hora, voltar para casa e me arrumar para o trabalho. Assim, toda manhã ensolarada passo pela frente do Copacabana Palace, pelos quiosques junto à areia, inclusive o Bar Luiz, onde Delaine e Chiquinho se responsabilizam pelo chope Brahma honestíssimo, em horário mais quente, é claro. Na caminhada de ida, à esquerda fica o horizonte onde a terra faz a curva, no meio do marzão besta. Na volta, a paisagem fica à direita, acrescida dos vendedores que começam a se instalar no piso de pedras portuguesas com cangas, camisetas, bonés, bermudas. Nunca vi, até hoje, vendedor de guarda-chuva. Vez por outra um navio de cruzeiro singra bem além da rebentação e faz lembrar, não sei por que, os portugueses e as caravelas ancestrais.
Pelo asfalto, carros e ônibus seguem para a cidade, apressados, mas sem buzinas. O cenário inspira um silêncio que contagia motoristas e passageiros, a um tempo testemunhas e cúmplices daquele vaivém de pernas e bicicletas. Toda manhã o cenário me remete ao começo da década de 80, quando percorria a Atlântica a caminho do trabalho na Presidente Vargas, metido num terno mais implacável que impecável, ainda mais porque não era tão comum quanto hoje o transporte com ar condicionado. Olhava pela janela sem inveja, e sim com alguma reverência por aquela pequena multidão desobrigada de enfrentar a labuta, como eu, na contramão do lazer.
Os paulistas, que sempre gostaram de atribuir ao carioca certa aversão ao trabalho, veem nas praias cheias a comprovação desta deslavada calúnia. Se considerarmos a população total do Rio de mais de seis milhões de felizardos, dos quais digamos que um terço apenas trabalhe diariamente, teremos que mais de cem mil, em tese, estão de férias a cada mês. Isso sem falar nos estudantes, turistas e nos trabalhadores da praia, além dos que não precisam estar no batente às oito. E, claro, sem esquecer os idosos que foram o tema central de Carla Camurati no filme “Copacabana”, como a senhora que entrou no elevador do Panambi, manhã cedinho, e me saudou com um “Bom dia, jovem”. Bendita anciã.