Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

26

de
abril

O último a chegar…

 

…também é filho do bispo…

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24

de
abril

Profissão Político

Como dizia Nelson Rodrigues, um turista que passasse pelo Congresso Nacional nos dias que correm escreveria no seu caderninho: “O brasileiro é um lorpa, um pascácio”. De outra forma, como explicar os abusos de deputados e senadores com tudo o que está ao seu alcance e que com os nossos votos se perpetuam ? O jornalista Luiz Garcia acha que suas excelências confundem subsídios com salários e mandato com emprego. Também acho, e vou além: política é profissão neste Brasilzão de meu Deus. Não precisa ter formação específica, basta simpatia, lábia, algum carisma e umas posições aparentemente firmes sobre assuntos determinados que estão na pauta do dia desde há muito. Aborto, casamento gay, pena de morte, liberação da maconha, por aí.

A depender do perfil do político, ou política, pode ser favorável a tudo, contrário a tudo, um pouco contra e um pouco a favor, até mesmo não ter opinião formada e sair de metamorfose ambulante, como o Lula prefere. Essencial é fazer da política emprego fixo. A maioria começa no município, na vereança, parte para o nível estadual na Assembléia Legislativa, federal, na Câmara e chega ao Senado geralmente depois de ser governador.

Há uma sutileza que convém lembrar sempre: vereadores e deputados são eleitos em eleição proporcional, enquanto senadores são eleitos em eleições majoritárias. O finado Roberto Campos me disse que sempre se elegeu deputado federal com 50 mil votos, sem subir num palanque, sem praticamente sair de casa. O partido o carregava nos ombros, até que resolveu lançá-lo ao Senado, em 1998: “Tive dois milhões de votos e perdi por 300 mil”, lembrou, sem muita amargura, na despedida do mandato de deputado federal.

Com o tempo, e sem arriscar à toa, o cidadão, ou cidadã, constroi carreira política em Brasília, nem que seja no baixo clero, e fica por lá 40 anos, sem ninguém dar por ele, ou por ela. Vira zumbi pelos corredores e salões, sorrindo e cumprimentando todo mundo com o mesmo ar de quem não sabe direito o que acontece em volta. Severino Cavalcanti foi o expoente desse espécime bastante comum na Câmara. No Senado o buraco é mais embaixo, até a viúva do Jefferson Peres, entre uma lágrima e outra, pediu os R$ 118 mil que ele não usou da cota de passagens aéreas. E Wellington Salgado já avisou que não disputará eleição ano que vem, vai ser suplente de novo, que sai muito mais em conta.

Se é esse tipo de raciocínio que vigora nas duas Casas do Poder Legislativo, como se poderia esperar outro comportamento do Gabeira? Por que ele seria a vestal no meio da zona? Chico Alencar e Luciana Genro, também dissidentes petistas, doaram passagens para viagens a Brasília, no interesse partidário. Já o deputado carioca de coração deu passagem para a filha visitar a irmã no Havaí. Tudo bem que ele assumiu o erro e se desculpou, mas depois dessa mancada deve reavaliar a hipótese de concorrer ao Senado no ano que vem.

Para melhor esclarecimento, reproduzo o Moderno Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa: “lorpa lor.pa (ô) adj e s m+f 1 Que, ou pessoa que é imbecil, parva, pateta. 2 Que, ou pessoa que é boçal, grosseira, estúpida – pascácio pas.cá.cio sm (cast pascasio) pop Lorpa, tolo; homem muito simplório”. Alguém se habilita?

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21

de
abril

Onde?

Quais coisas são de fato relevantes, e quais desimportantes? Quem são os medalhões que nos olham com altivez e soberba, e como se chamam os meninos e meninas, os velhos e todos os miseráveis que nos abordam nas calçadas imundas da zona nobre da cidade? Quantos dias, quantas horas, quanto tempo demorará até entendermos a inutilidade dos relógios, a ineficácia dos calendários? Onde está o Deus de tudo e de todos, que deixa seus filhos errantes pela vida, de tropeço em tropeço, de queda em queda, caminhando em direção ao nada, chegando a lugar nenhum?

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16

de
abril

Piadas da hora

Frank, finíssimo humor histórico no feriadão de 21 de abril. Joaquim Silvério dos Reis, o traidor, faz a pergunta, que Tiradentes responde com a última palavra da expressão latina na bandeira de Minas Gerais: "Libertas quae sera tamen" ("Liberdade ainda que tardia"). Crédito extra para Galeno Lima, possível professor de História. 

 

Frank, um olho nos passageiros espancados na estação de Madureira pelos guardas da Supervia e outro nas viagens de Adriane Galisteu quando namorava o deputado do texto abaixo. As duas copiadas do blog www.cartunistasolda.blogspot.com.

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16

de
abril

Diário da lama

 

 

 

 

 

 

 

 

Fabinho, "o deputado da putada", e Adriane.


 

O ilustre deputado Fábio Faria, do não menos ilustre PMN do Rio Grande do Norte, bonitão que só, pagou passagens aéreas para a então namorada Adriane Galisteu, amigos, assessores e até a mãe da irrequieta apresentadora com a cota da Câmara dos Deputados, em 2007 e 2008. Na terça-feira passada, flagrado no desvio de conduta, devolveu 21,3 mil reais e disse que não lidou pessoalmente com os pedidos e emissões dos bilhetes aéreos. Adriane achou “o fim do mundo” ter viajado com verba da Câmara – santa ingenuidade, Batman!


Em outra historinha exemplar a que se deu pouca atenção, uma simples consulta de vários senadores da oposição, feita em 2006, resultou na aprovação do parecer do senador Pedro Simon contrário à renovação das concessões para parlamentares explorarem emissoras de rádio e televisão, na Comissão de Constituição e Justiça. Foi um soco no queixo do “grampinho” ACM Neto, Sarney, Tasso, Collor, Zé Agripino, Roberto Cavalcanti e até Wellington Salgado. Tudo porque a Constituição diz no Artigo 54 de deputados e senadores não podem, desde a posse, ser proprietários, controladores ou diretores de empresa concessionária de serviço público.


Imagino Sarney tirando a televisão do quarto de empregada e botando a culpa no Simon: “Pois é, dona Gertrudes, aquele turco safado decidiu que nós não podemos ter televisão, veja que absurdo”. O neto do grande coronel eletrônico baiano ACM, truculento por herança genética, vai mandar tirar não só os aparelhos de tevê da criadagem, como também os radinhos, os três-em-um, tudo que ligue na tomada, faça barulho e não seja liquidificador.


Outros políticos menos afortunados demitiram empregadas domésticas pagas com a verba de gabinete, botando a culpa nos jornalistas que publicam essas coisas, em vez de enaltecer seu trabalho parlamentar. Quer dizer, o Alberto Fraga, que inaugurou a série, ia se atrapalhar mais uma vez:


Pois é, dona Feliciana, infelizmente não vai dar pra senhora continuar trabalhando aqui em casa por culpa dessa imprensa maledicente e marronzista”.


Mas, doutor Fraga, não foi o senhor que mandou me contratar?”


Foi, mas aí a senhora veja bem em quem votar, pra não virar infratora da lei”.


Mas eu votei no senhor, deputado”.


É…aí ficou difícil de explicar”.


E não posso deixar de lembrar o espantoso caso do telefone celular que o senador Tião Viana mandou a filha levar na viagem de 15 dias ao México. Quando a história vazou, ele justificou:


Emprestei para me tranquilizar, para saber como ela estava, se estava tudo bem”.


Pai extremado! Exemplo para a posteridade. Quanto custou o zelo senatorial de Tião? Quase 15 mil reais. São rios de dinheiro público gastos indevidamente por gente que nós, o povo, botamos em Brasília com os nossos votos. É o fim da picada ver a cara-de-pau da maioria, fingindo que não sabia de nada, não pensou que fosse irregular, se soubesse, Deus me livre e guarde dessas coisas, mamãe e papai sempre ensinaram o bom e o certo.


E para não dizer que não falei de flores, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados conseguiu, afinal, notificar o deputado Edmar Moreira, o do castelo no interior de Minas. Foram 15 dias de tentativa, desde a instauração de processo por quebra de decoro, no primeiro dia do mês, o Dia da Mentira. Tomara que o deputado não se beneficie disso. Ele é acusado de ter gasto o dinheiro da verba de representação de 15 mil mensais com ele mesmo, através de notas fiscais de suas empresas de segurança particular.

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7

de
abril

O troco

 Fernando Henrique Cardoso falou em Washington, ontem. Claro que tratou de Brasil e de Lula, advertindo que "carisma não é tudo", a propósito da extemporânea popularidade do presidente brasileiro no mundo inteiro, depois da saudação de Barack Obama na reunião do G-20, em Londres. "Eu ganhei dele no primeiro turno duas vezes. Então, depende do momento, das circunstâncias. Não basta o carisma".

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2

de
abril

Sofista

Autor da proposta de emenda constitucional pela criação da bancada representativa dos brasileiros que vivem no exterior, o senador Cristóvam Buarque argumenta que os três milhões de patrícios que optaram por viver em outros países somam mais do que a população de Brasília, hoje por volta dos dois milhões de almas. É um sofisma do nobre educador: os brasilienses é que nunca precisaram de representação no Congresso Nacional. A PEC de sua autoria vem apenas provar.

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2

de
abril

Os Quadros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 "Beije a cozinheira" é por conta dela.

 

A Polícia Federal vai investigar a existência de uma conta de Jânio Quadros na Suíça, segundo as folhas do dia. A rigor, não há nenhuma novidade na matéria, todos nos lembramos de quando Dirce Tutu Quadros, filha do ex-presidente, entrou numa disputa tipo lavagem de roupa suja nas ruas para sacar a grana depositada na tal conta numerada.


Jânio estava mal de saúde, mas reuniu as forças que restavam e fez internar a filhota rebelde numa clínica para doentes mentais – o que não surpreendeu ninguém, porque na família acho que só a Eloá podia passar por normal. O marido, que nunca tive a honra de ver pessoalmente, era um descabelado magro com um olho de vidro e óculos e que falava sempre num tom gutural cavernoso, gesticulava demais, fazia caras e bocas e com certeza foi o maior histrião da vida pública nacional.


Tutu, a Dirce, conheci em Brasília quando foi deputada constituinte, eleita pelo PSC, com rápida passagem pelo PTB e finalmente fundadora do PSDB, em 88. Guardava estranha semelhança com o pai, era magra e feia, cabelos negros escorridos, dedos longos e nervosos, olhar meio esgazeado, mas sem o olho de vidro que emprestava a Jânio certo ar de boneco de ventríloquo. Ela fumava muito e usava uma longa piteira, com certeza lembrança da família Adams. Politicamente, votava com os progressistas e foi contra os cinco anos de mandato para José Sarney.


Não sei a origem do “Tutu”, imagino ser tratamento carinhoso, apelido familiar que ganhou as ruas e a vida pública, incorporando-se ao nome, como o Lula do Luís Inácio. Nós nos referíamos a ela sempre como Dirce Tutu Quadros, porque a identidade estava no sobrenome e, ademais, ela tinha cara de Dirce – não a ninfa da mitologia grega transformada em fonte de água, a filha de Eloá poderia, quando muito e com a preciosa ajuda da imaginação, virar um enorme cinzeiro fumegante.


Dirce chegou a lançar pela editora Paz e Terra o livro de culinária com o sugestivo título de “Delícias de Tutu”, prefácio de Millôr Fernandes, que não foi nenhum campeão de venda, mas projetou sua imagem além dos limites estreitos do Congresso Nacional. Dirce Tutu Quadros enfrentou questionamentos jurídicos na vida pública porque era casada com um americano e adotou a cidadania do marido, o que a tornaria inelegível no Brasil. De fato, ela viveu muitos anos nos Estados Unidos, onde teve um filho que chegou a andar por aqui, apresentado como John, um jovem mancebo com uma cara de bobo alegre e uns “ademanes” (como dizia Jânio) muito duvidosos.


Quando Dirce brigou com o pai pelo dinheiro depositado na Suíça e foi internada à força, ficou evidente para todos que acompanharam o noticiário que o homem da vassoura, que varreria a corrupção do Brasil, tinha feito um pé-de-meia legal desviando dinheiro público. É essa grana que a Polícia Federal fareja e que a família Quadros diz não existir. Assim como a família Maluf nega os milhões de dólares nos paraísos fiscais.

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2

de
abril

Antes tarde…

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1

de
abril

Outono ou nada

Muito se tem escrito sobre o outono nestes primeiros dias da estação que veio de roldão nas “águas de março fechando o verão”. Fotos nas páginas de papel e na internet revelam a beleza do chão atapetado de flores e folhas coloridas, a suavidade cinzenta do céu nublado, o sol morno sobre as praias, mais ainda sobre a “Princesinha do Mar”. João de Barro e Alberto Ribeiro criaram mais do que um apelido, criaram a identidade do bairro, em plena década de 40, quando até os outonos eram outros.


Desde criança aprendi que o Rio tinha duas estações apenas: verão e calor. Segui pela vida repetindo essa sandice, até voltar, depois de 30 anos em Brasília. Em Copacabana, afinal, como num “insight”, constatei que a sexta-feira 20 de março não foi igual à véspera. O verão acabara e o outono se instalou de maneira triunfal, não tímido e sorrateiro, mas com trombetas e clarins. O sol brilhava, mas não fazia o mesmo calor, a brisa na orla já não era o bafo quente de antes, e nos dias seguintes ficaria mais e mais amena, até sugerir senão um casaco, ao menos uma camisa mais grossa.


Exagero? Talvez, mas a cada manhã caminhar no calçadão é mais agradável, até mesmo quando a chuva fininha insiste em perturbar o cenário. A areia molhada ganha outra densidade e uma cor mais escura, como o mar lá adiante, disfarçado atrás do véu úmido da manhã. No mesmo ritmo de quando o sol reina, as pessoas prosseguem no vaivém da caminhada, da corrida ou da bicicleta. Parece que nada atinge a realidade do calçadão.


Do outro lado do asfalto, bolsas de valores caem, desemprego cresce, cesta básica sobe, ladrões roubam, comentaristas econômicos e políticos profetizam caos e desespero, pranto e ranger de dentes. Do lado de cá, o outono se impõe concreto e palpável, inteiro e íntegro, enquanto encerro meu percurso matinal.


E até a água de coco está mais gelada esta manhã.

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