1
de
abril
Outono ou nada
Muito se tem escrito sobre o outono nestes primeiros dias da estação que veio de roldão nas “águas de março fechando o verão”. Fotos nas páginas de papel e na internet revelam a beleza do chão atapetado de flores e folhas coloridas, a suavidade cinzenta do céu nublado, o sol morno sobre as praias, mais ainda sobre a “Princesinha do Mar”. João de Barro e Alberto Ribeiro criaram mais do que um apelido, criaram a identidade do bairro, em plena década de 40, quando até os outonos eram outros.
Desde criança aprendi que o Rio tinha duas estações apenas: verão e calor. Segui pela vida repetindo essa sandice, até voltar, depois de 30 anos em Brasília. Em Copacabana, afinal, como num “insight”, constatei que a sexta-feira 20 de março não foi igual à véspera. O verão acabara e o outono se instalou de maneira triunfal, não tímido e sorrateiro, mas com trombetas e clarins. O sol brilhava, mas não fazia o mesmo calor, a brisa na orla já não era o bafo quente de antes, e nos dias seguintes ficaria mais e mais amena, até sugerir senão um casaco, ao menos uma camisa mais grossa.
Exagero? Talvez, mas a cada manhã caminhar no calçadão é mais agradável, até mesmo quando a chuva fininha insiste em perturbar o cenário. A areia molhada ganha outra densidade e uma cor mais escura, como o mar lá adiante, disfarçado atrás do véu úmido da manhã. No mesmo ritmo de quando o sol reina, as pessoas prosseguem no vaivém da caminhada, da corrida ou da bicicleta. Parece que nada atinge a realidade do calçadão.
Do outro lado do asfalto, bolsas de valores caem, desemprego cresce, cesta básica sobe, ladrões roubam, comentaristas econômicos e políticos profetizam caos e desespero, pranto e ranger de dentes. Do lado de cá, o outono se impõe concreto e palpável, inteiro e íntegro, enquanto encerro meu percurso matinal.
E até a água de coco está mais gelada esta manhã.

