12
de
junho
Salvando o casamento
Deixo de lado a agenda dos acontecimentos da semana, de resto uma sucessão de tragédias e dramas pessoais ou sociais e políticos, para distrair a meia dúzia de leitores cativos com uma historinha de casamento. Preocupada com a monotonia imposta pela rotina de oito anos de casada, a esposa procurou alguma fórmula capaz de manter acesa a chama do desejo e do ardor entre ela e o marido, tipo tranquilão e meio desligado quanto a essas preocupações da cara-metade. Fuça daqui e dali, ela encontrou um quase manual na internet, no original em inglês, pois era caso norte-americano, e decidiu pô-lo em prática:
“Meu bem”, começou a abordagem, voz aveludada, depois do jantar, “sabe que eu li um texto muito interessante sobre o casamento esta tarde e…”
“Leu o que, meu anjo?” ele interrompeu sem a menor elegância. Ela fez que não notou e seguiu em frente:
“Li um texto na internet sobre a rotina nos casamentos (Fez uma pausa plena de significados). Você sabia que a monotonia, a rotina, a falta de novidade, tudo isso é a principal causa do fim dos casamentos?”
“Sim…E daí?” tornou ele, impaciente.
“Daí que eu pensei que nós podíamos fazer umas coisas para, sei lá, animar nosso casamento”.
“Que coisas, Marion?” – ela sabia que quando a tratava assim a coisa era séria, porque ela odiava o próprio nome, desde o jardim de infância.
“Bem, Ernesto”, ela rebateu, na mesma moeda, “só para variar nós podíamos brincar de cachorro e gato…ou melhor, gata, como eu li”.
“Como é isso?” ele se interessou de verdade.
“A gente fica de quatro pela casa, você é o cachorro e eu a gata e você me persegue até a gente se cansar…”
“E aí?” ele perguntou, com óbvia má vontade.
“Como e aí? Aí acontece, ora!” Ela se irritou, mas imediatamente recuperou a calma e explicou com todas as letras o que aconteceria ao final da brincadeira.
Naquela noite os dois engatinharam entre móveis e cortinas, pelados, ele fingindo o cão, ela a gata, até a brincadeira terminar na cama, onde, bufando como um touro, ele lhe disse que tinha sido a coisa mais sem graça no casamento deles, até porque “cachorro não come gato, nem gata”.
Dias depois, ela voltou à carga com outra idéia tirada do mesmo texto. Transariam de olhos fechados, ele imaginando que ela era outra e ela imaginando que ele era outro. Não deu certo, é claro, nem com a luz apagada. No meio da coisa, ele parou:
“Peraí!”
“Ah, não, meu amor…”
“Ah, sim. Se você é outra mulher, que eu não sei quem é porque não quero ir pra cama com ninguém além de você mesma, quem será o homem que você está imaginando que eu sou? Não tem graça nenhuma, é melhor você procurar por ele logo de uma vez”.
Passaram dias quase sem se falar, até que no sábado ela não resistiu:
“Mô, a gente podia fingir outra coisa, sem complicar”.
“Você não desiste, né?” definitivamente ele estava de saco cheio e, para falar a verdade, aquela conversa de rotina e monotonia começara a fazer sentido para ele na noite do cachorro doido. Mas até que a nova idéia era melhorzinha, pelo menos não era dentro de casa. Os dois se encontrariam num “single bar” no centro da cidade, naquele sábado mesmo. Ele chegaria às três e ocuparia uma mesa. Ela chegaria às três e quinze, ocuparia outra mesa e começariam a flertar, como se não se conhecessem. Do flerte iriam para um motel e pronto: estava derrotada a rotina.
Ele entrou no bar de pequenas mesas redondas e sentou-se numa ao fundo. Pediu um uísque e só então notou a mulher sozinha em outra mesa, olhando-o com insistência. Sorriram um para o outro e em menos de um minuto estavam na mesma mesa. Às três e quinze, pontualmente, ela entrou no bar, olhou todas as mesas e reconheceu a camisa do marido. Ele e a outra riam como velhos amigos. Ela se aproximou desconcertada:
“Muito bonito, né? Foi isso que nós combinamos, foi?”
E ele, sem se levantar:
“Perdão, minha senhora, eu a conheço?”

