Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

31

de
julho

Depondo na CPI

“Sr. Presidente, antes de mais nada queria dizer que apesar de ordenador de despesas, tesoureiro-mor e reserva moral e ética do partido jamais nomeei quem quer que fosse, nunca sequer mencionei qualquer nome nem sugeri pessoa alguma para cargo no governo. Nem ascensorista, nem copeira, nem contínuo, e muito menos diretor administrativo-financeiro de nenhuma estatal. Nem carta escrevo e há décadas só recebo contas pelo carteiro, que por sinal não conheço porque deixa os envelopes na caixinha do prédio onde moro e cujo endereço não é o que consta dos documentos desta CPI, ao que estou informado”.

 
“Entendo, mas Vossa Excelentíssima Senhoria saberia explicar como foi movimentada essa montanha de dinheiro para vários correligionários e aliados no Congresso?”
 
“Sr. Presidente, antes de mais nada devo esclarecer que nem sabia que no planalto central do país existe monte, morro ou colina, quanto mais montanha. Nem ladeira há por aqui, exceto talvez as passagens das tesourinhas sob o eixão…”
 
“Perdão, mas Vossa Senhoria Reverendíssima está fugindo ao assunto da pergunta”.
 
“Sr. Presidente, antes de mais nada perdão peço eu por não me fazer entender claramente aos senhores membros desta honrada comissão. O único montante de dinheiro movimentado e de que tive conhecimento não era nenhuma montanha, tanto que coube em apenas doze malas de viagem, e foi destinado à distribuição entre as populações carentes das cidades satélites menos afortunadas do Distrito Federal, dentro do programa de transferência de renda realizado pelos ministérios da ação social, da assistência idem, das cidades, da integração, da saúde, da previdência, do trabalho e do subemprego, da educação, da cultura, da defesa, do meio campo e assuntos fundiários, do ataque à pobreza, da fazenda, dos direitos humanos, da segurança institucional…”
 
“Tá bem, chega! Vossa Absurdíssima Senhoria está tentando nos enrolar e essa CPI é coisa séria”.
 
“Sr. Presidente, antes de mais nada quero mais uma vez pedir desculpas aos senhores deputados e senadores integramente imbuídos do melhor espírito cívico moralizador da vida pública nacional, para que não se repitam episódios lamentáveis como aqueles dos tempos do ex-presidente alto, jovem e atlético casado com aquela lourinha baixinha e que tinha como tesoureiro o careca de óculos, por sinal de péssima fama…”
 
“Chega! Basta! Pára de falar. Se Sua Senhoria Estupidíssima não estivesse munido de habeas corpus preventivo e acompanhado de oito advogados do mais caro escritório paulistano de advocacia eu o mandaria agora mesmo para trás das grades. Responda só uma curiosidade final, para encerrar esta palhaçada: Vossa Manjadíssima Senhoria e Excelência já ouviu falar do senhor Jacinto Lamas?”
 
“Sr. Presidente, antes de mais nada e cá pra nós, sempre achei que não existisse tal senhor e que esse nome não passasse de trocadilho infame ou indireta sobre a situação moral, ética e legal em que se encontra nosso amado Brasil, que evidentemente não merece isso, como bem asseverou dia desses o próprio…”
 
“Caluda! Pára! Stop! Cortem o som dessa Imbecilíssima Senhoria já!"
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27

de
julho

Contra a corrupção

No mês passado, 43 funcionários foram afastados do serviço público. Desde 2003, início do governo Lula, 2.179 foram expulsos do serviço público por atos de corrupção. No mês passado, o governo bateu seu recorde: 43 servidores perderam seus postos. Isso eleva para 311,2 expulsões a média anual e mostra a intensidade de atos de corrupção a que o governo federal está exposto, especialmente porque esses dados não incluem as ocorrências em estatais. No lote de 2.179 expulsões, 1.878 foram demissões sumárias. Outras 169 foram destituições de cargos ou funções e 132 cassações de aposentadorias. Boa parte dos casos envolve o uso do cargo em proveito pessoal ou recebimento de suborno. Apesar disso, a expulsão do serviço público raramente acarreta condenação criminal. Ao mesmo tempo em que comemora o aumento de eficiência dos mecanismos de combate à corrupção, o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, lamenta que a Justiça não consiga punir os culpados.

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25

de
julho

Para reflexões existenciais

 

Galáxia NGC 1097, registrada pela NASA e reproduzida pela Folha de S. Paulo na foto tomada a partir do telescópio Spitzer. Ela está a 50 milhões de anos-luz da Terra. A luz se desloca à velocidade aproximada de 300 mil quilômetros por segundo (nada viaja mais rápido do que ela), percorrendo 9,46 trilhões de quilômetros por ano entre os astros.

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23

de
julho

Neguinho, o último exilado

 

Neguinho, desembarcando no Rio.

 

Quando ultrapassou a porta automática da área de desembarque e se viu sozinho diante do batalhão de repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e antigos companheiros de luta e de exílio, o marinheiro Antônio Geraldo da Costa, mais conhecido por “Neguinho” ou pelo codinome da militância, “Tigre”, precisou caminhar alguns metros até alguém gritar “Viva Neguinho!” e ele ser reconhecido. Baixo e franzino, a aparência pelo menos uma década aquém dos seus 75 anos, avançou então ao encontro dos amigos e, com voz emocionada, soltou o verbo:

 
“Aqui estamos porque lá estivemos, na luta contra a ditadura, por um país livre e democrático”. Uma declaração um tanto épica, que ganharia pouco mais tarde mais conteúdo: “Faria tudo de novo, agora com mais experiência”.
 
O “tudo” a que Neguinho se referiu assim que desembarcou, às 16 horas da terça-feira 21 deste julho friorento no Rio de Janeiro, são as ações de que participou na luta política nos anos 60, no Rio e em São Paulo. Resgate de presos políticos e assaltos a bancos com mortos levaram-no à prisão e às torturas comuns contra inimigos do regime militar, sobretudo no caso de um ex-marinheiro como ele, remanescente da revolta que serviu de estopim para o golpe de 1964.
 
Neguinho foi saudado pelo grupo “Amigos de 68” e festejado no aeroporto Tom Jobim como “o último exilado brasileiro”. Desde 1972 ele vivia na Suécia, sob a identidade de Carlos Juarez de Melo, com a qual obteve nova cidadania, casou-se, teve dois filhos e trabalhou como cozinheiro para frades e auxiliar num asilo de velhos.
 
Por mais de três décadas, ele viveu sob a falsa identidade que o inibiu de retornar ao Brasil. O velho marinheiro imaginava que, mesmo depois da anistia, em agosto de 1979, poderia ser preso pelos assaltos a bancos e ao mesmo tempo temia que as autoridades suecas o extraditassem, caso revelasse o nome verdadeiro.
 
O amigo Guilem Rodrigues Silva, também ex-marinheiro, ex-militante e exilado na Suécia desde o começo da década de 70, foi quem mais o encorajou a regularizar sua situação e retornar legalmente ao Brasil. No aeroporto, em meio à ansiedade da espera, Guilem lembrou lances da vida em comum com Neguinho:
 
“Eu já vivia em Lund, cidade universitária sueca, em 1972, quando a polícia dinamarquesa me procurou porque três ciganos me haviam citado como contato. Realmente, eu havia recebido 2.500 dólares e comprei as passagens de dois deles, que fugiam do Chile, onde a situação política se deteriorava rapidamente”.
 
Hoje juiz desembargador na mesma cidade, Guilem foi ao encontro dos fugitivos, desmentiu a condição de ciganos e assumiu plena responsabilidade por eles. Os dois outros resolveram seus casos, e apenas Antônio Geraldo da Costa manteve uma condição complicada de um lado e do outro do mundo.
 
“Aos poucos fomos todos convencendo Neguinho a resolver sua situação. O fato de ele ter conseguido a cidadania sueca com nome falso realmente preocupava, mas sua história era verdadeira, a perseguição política e as torturas no Brasil não eram invenção. Nos anos 70, havia muitos brasileiros na Suécia, eu conheci o Gabeira dirigindo metrô por lá. Com a anistia e o tempo, todos foram retornando e só ficamos eu e o Neguinho. Eu porque tenho oito filhos e quatro netos suecos, ele porque tinha o problema do nome falso, um detalhe que só os amigos mais próximos e sua própria família conheciam”.
 
Foi, a propósito, uma amiga do exílio, Eliete Ferrer, também ex-militante da esquerda, quem ao voltar para o Brasil foi à luta e conseguiu uma segunda via da certidão de nascimento de Neguinho. Foi também o pontapé inicial da sua viagem de volta. Com base na certidão, o advogado Modesto da Silveira, defensor de inúmeras causas durante a ditadura, obteve a anistia e a aposentadoria como suboficial da Marinha, há cerca de dois anos.
 
Ao mesmo tempo, Guilem acertou com o advogado Sten de Geer, membro da nobreza sueca, o processo de indulto pelo crime de falsidade ideológica, e Neguinho pôde se livrar das amarras que o impediam de voltar ao Brasil sem sustos. Por isto, em meio às manifestações na sua chegada, ergueu o passaporte brasileiro como troféu e declarou:
 
“Quero agradecer ao ministro da Justiça, Tarso Genro, por ter mandado uma pessoa daqui para regularizar a minha situação e eu conseguir meu passaporte”.
 
Entre os antigos companheiros presentes à chegada estavam os presidentes da Unidade de Mobilização Nacional pela Justiça, ex-marinheiro José Alípio Ribeiro, e do Movimento Democrático pela Anistia e Cidadania, ex-marinheiro Raimundo Porfírio Costa, além do advogado Modesto da Silveira e a amiga Eliete Ferrer, em cuja casa Neguinho ficará hospedado “até arrumar um apartamento”, como disse Guilem.

 

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9

de
julho

Abraço de afogado

 

Não queria falar nisso, mas tem sido difícil, impossível mesmo, assistir ao festival de desfaçatez sem meter minha colher. Não colher de sopa, que não sou nenhum cientista político, nem mesmo de sobremesa, que tampouco sou colunista político versado e tergiversado em muitos assuntos. A minha modesta colher de chá pode até ser interpretada como ajuda, sabe como? Pois é.


Se me perguntassem hoje, diria que o presidente Lula comete no momento seu maior deslize político desde 2003, incluindo aí casos escabrosos como o assassinato de Celso Daniel, o mensalão, os aloprados do Berzoini e a violação do sigilo bancário do Francenildo. Escorado no formidável índice de popularidade de quase 80 por cento e certo de que é uma espécie de semideus infalível, desafia os ares e manda seu partido defender Sarney com unhas e dentes.


Só mesmo viajando muito para não perceber o cenário armado no Senado. Será que entre um aeroporto e outro ninguém soprou ao ouvido supremo a realidade percebida em toda parte? O rei está nu, presidente. Sarney está se desmanchando como os sonhos dos seus antigos correligionários. Quem ficar com ele corre o risco de afundar no conhecido “abraço de afogado”.


A fantástica popularidade do presidente Lula se deve ao seu carisma, a sua empatia e ao seu charme especial, que lhe permite sentar-se ao lado da rainha da Inglaterra na foto oficial de um encontro de chefes de Estado e de governo em Londres, ou ser saudado como “o cara” pelo presidente norte-americano que também significava novidade, como vimos. Mas, como vemos, aprendeu, tanto quanto “o cara”, que não se muda muita coisa nessa engrenagem antiga, mas que nunca enferruja porque é azeitada o tempo todo com dinheiro, muito dinheiro.


O poder é máquina de moer ideias e pessoas. Quem é este Lula aliado de Sarney? Quem é esta Dilma aliada de Sarney? Quem são essas pessoas aliadas de Sarney? José Sarney representa o ocaso de uma geração, como Antônio Carlos Magalhães. Lembra do ACM? Pois é. Fez Paulo Souto governador em 2002 e quis fazer de novo em 2006. As pesquisas todas davam Paulo Souto na cabeça, não tinha pra ninguém, muito menos para Jaques Wagner, que acabou eleito no primeiro turno com quase 53% dos votos. Cansado de ACM, o povo fingiu apoiar seu candidato e votou no outro.


Nas eleições seguintes ao escândalo do mensalão, vários deputados envolvidos tentaram se reeleger e quebraram a cara. Professor Luizinho, João Magno e até quem não tinha nada com isso mas dançou, a médica Ângela Guadagnin – só estou citando petistas. Quem se lembra da Àngela? Uma gordinha simpática, ex-prefeita de São José dos Campos, oclinhos de aro fino, parecia apresentadora de programa de culinária na tevê. Comemorou a absolvição do João Magno dançando no plenário e depois dançou nas urnas da reeleição.


Guardadas as proporções, Lula pode estar dançando como Ângela Guadagnin, por não prever estragos políticos resultantes de alinhamentos difíceis do povão engolir. A soberba não é boa companhia, menos ainda conselheira confiável.


Emplacar Dilma Rousseff candidata do seu partido já tem sido complicado demais, ela não ajuda, é brigona, dá esporro reunião, não é nenhuma miss simpatia – bem ao contrário. Tanto é uma pré-candidata pesada que Lula depende o PMDB para tentar elegê-la no ano que vem. Mas daí a se enlamear com Sarney e companhia bela é outra história. O povo pode estar aplaudindo, os aposentados do INSS rindo à toa com a promessa de ganho real, mas na hora de votar, o buraco é mais embaixo. Tá todo mundo vendo tudo o tempo todo.

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9

de
julho

Tudo igual

 

Bate-boca ontem no plenário do Senado entre Tasso Jereissati e Eduardo Suplicy, observado de perto por colegas. Atrás de Tasso, o presidente tucanoSérgio Guerra tenta acalmá-lo, em vão. O coronel cearense tem a mesma empáfia de outro coronel, Antônio Carlos Magalhães, e quando se exalta parece até fenômeno de reencarnação. Mas o detalhe que me chamou atenção é o modelito da galera. Parece que compram ternos na mesma loja em Brasília, e no mesmo tom. Deve ser para confundir a gente, né não?

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7

de
julho

Diadema retrós!

Dilema atroz! aprovado no Senado em caráter terminativo o projeto que isenta diabéticos do recolhimento do imposto de renda, não sei se torço para ele passar também na Câmara e ser sancionado pelo Lula, ou se continuo à espera da cura prevista em pesquisas com células-tronco. Como ganho menos que um neto do Sarney ou uma nora (nova) do Lobão, continuarei a apostar na medicina.

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