15
de
agosto
Ricardo Cravo Albin
a cara e a voz do Museu da Imagem e do Som carioca não foi ouvido
Na festa do anúncio do projeto arquitetônico vencedor do concurso para a construção do novo Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, na segunda-feira desta semana, entre dezenas de convidados ilustres uma ausência em especial foi percebida pela maioria: a de Ricardo Cravo Albin, responsável pelo MIS por 18 anos e artífice da engenharia política que garantiu a sobrevivência da memória da mais autêntica cultura popular brasileira durante o pior período da ditadura militar.
“Não quero entrar numa discussão sem sentido. Muita gente tem me ligado para perguntar e falar bem e mal, mas eu não vou falar mal do meu filho”, diz, diplomático, entre goles de café depois do almoço e antes de completar seu raciocínio: “As pessoas não têm que se atrelar a outras pessoas, mas sim a ideias, isso é o que interessa: a manutenção da essência do museu”.
O MIS do Rio de Janeiro, pioneiro no país, foi fundado em 1965 pelo governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, e em alguns meses passou às mãos de Cravo Albin, “não fundador, mas estruturador do MIS”, como se considera.
“Hoje me orgulho de ter fundado 18 museus da imagem e do som pelo Brasil afora. O primeiro foi o de São Paulo, entregue a Rudá de Andrade (filho de Oswald de Andrade) e que hoje é um dos principais do país”, comenta o misto de advogado que não advogou e jornalista que se dedicou ao registro do passado e não do presente.
Ricardo Cravo Albin estranha a maneira como se dá a evolução do MIS carioca, mas não lhe agrada a mudança: “Copacabana não precisa de museu, de movimento. Já é muito movimentada. Além disso, o novo museu vai destoar de toda a arquitetura da Avenida Atlântica”, comenta, aproveitando para uma alfinetada:
“Na terra de Niemeyer, promove-se um concurso internacional e vence um escritório americano! Isto para não falar que já existe um projeto, do arquiteto Glauco Campello, para a construção do prédio anexo do MIS, ao lado da sede na Praça XV”.
A sede é um prédio histórico, construído para abrigar a exposição comemorativa do centenário da independência, em 1922. No livro “Rastros de Memória”, em que conta a história do museu, Ricardo Cravo Albin incluiu a foto da maquete baseada no projeto de Campello.
“O natural seria construir o anexo ao prédio histórico”, adverte. “Inclusive, fico muito preocupado com o destino que se dará ao prédio do Pavilhão de Exposições. Espero que seja preservada sua importância histórica e cultural”.
O memorialista lembra que ao assumir o MIS, ele era um museu sem dinheiro e quase se acervo, numa época em que o país começava a sofrer a asfixia política e cultural da ditadura militar. Era preciso muito engenho e arte para levar adiante o projeto:
“As pessoas chegavam para mim perguntando por que fazer um museu do cinema”, ele ri. “Eu explicava que era um museu para a imagem e o som, mas não havia nada parecido no Brasil, nem no mundo”.
Assim, Cravo Albin inventou a série “Depoimentos para a Posteridade”, aberta com o de João da Baiana, de repercussão imediata na grande imprensa. Para determinar quem deveria gravar sua história, criou vários conselhos, cada um com 30 a 40 membros escolhidos entre artistas, estudiosos, jornalistas, professores, músicos.
Além de indicar as personalidades, os conselheiros davam aulas no próprio museu para turmas abertas aos interessados nos temas dos cursos, de música erudita a esportes, passando por literatura, cinema, teatros, artes plásticas e cinema.
“Cobrava-se barato, o museu ficava com 80% e o professor com 20%, mas mesmo assim não havia dinheiro nem para as fitas de gravação. Em nome do MIS, eu pedia as gravações da Aliança para o Progresso, apagava as fitas e gravava os depoimentos”, ele revela, citando Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, entre tantos que gravaram suas vozes e histórias para a posteridade em fitas originais do programa norte-americano de propaganda ideológica.
No governo do general Ernesto Geisel, quando a situação geral do país ficou mais pesada, Ricardo Cravo Albin chegou a desviar material da representação da Sunab no Rio, onde trabalhava como assessor de imprensa, e por isto quase foi preso:
“Fui pessoalmente ao general João Batista Figueiredo, chefe do SNI, e expliquei que desviava papel higiênico, lápis, coisas de escritório, para ajudar o museu. Ele me ouviu e disse: ‘Pode ficar tranquilo que eu conheço bandido há muito tempo. Você não está roubando, é um cara honesto’. E eu escapei do inquérito e da cadeia”.
Com o tempo, ele criou o Golfinho de Ouro, para destaques na vida cultural, e o Estácio de Sá, para os mecenas da área, dois prêmios anuais entregues pelo governador em solenidades que mereciam cobertura de toda a imprensa.
Pelo que fez não só no Rio, mas nos 18 estados onde disseminou os museus da imagem e do som, Ricardo Cravo Albin esperava ser ouvido agora, sobretudo porque considera-se amigo de Sérgio Cabral, pai do governador “que eu peguei no colo, veja você” e também porque sua consultoria é solicitada até no exterior, como no futuro MIS de Angola, projeto da construtora Odebrecht.
“Mas não vou apequenar a questão. O importante mesmo é que o museu será enriquecido com novas tecnologias e mais espaço”, finaliza, embarcando no carro para o fim de semana em Paraty: “Vou renovar as forças”.


