Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

21

de
agosto

O beijo e o escarro

 

Aloysio Mercadante e Lula: uma questão de ótica.

Esta é a terceira ou quarta tentativa de iniciar a crônica semanal. Não precisaria, necessariamente, tratar de política, podia escrever sobre o médico paulistano que assedia as pacientes de inseminação artificial, ou o motorista da van escolar preso mostrando vídeo pornô para a aluna de 12 anos dentro do veículo, ou algum tarado entre milhões. Mas, enfim, nada me parece tão imoral quanto a situação na qual o presidente Lula pôs o partido que ajudou a fundar e que o levou ao pedestal onde está, mirando tudo de cima como se fosse mesmo “o cara” a quem se referiu Barack Obama.
 
Escrevo na tarde da sexta-feira plúmbea e abumbrosa no Rio, os termômetros ao redor dos 22 graus, o que, para carioca, é inverno brabo. Assisti, pela manhã, ao patético discurso de Aloysio Mercadante com os motivos da sua não-renúncia ao posto de líder petista no Senado. Me deu pena dele e é sobre o que escreverei.
 
Mercadante continua acreditando no partido e no Lula, um erro duplo e fatal. Seu mandato expira no ano que vem e nada garante que terá legenda para disputar a reeleição. Não aceitou apoiar Sarney precisamente porque seu eleitorado não entenderia, mas a qualquer momento, até a convenção que definirá os candidatos, será descartado, com todos os dez milhões de votos que o elegeram em 2002 e que o PT considera seus. Afinal, foi um insubordinado no momento exato da exposição pública de Lula aderindo ao patrimonialismo e à falta de ética que sempre combateu. Se lhe negarem a legenda, de nada valerão seus votos e eleitores passados.
 
Mercadante pode tirar o cavalinho da chuva, como dizia minha avó, porque o PT negará a vaga para a reeleição, o primeiro sinal foi a Marta Suplicy ressuscitar dos mortos como possível candidata ao Senado, e Lula afirmar que isso seria ótimo. Ainda assim, na suposição de que ele consiga a vaga para tentar a reeleição, quem garante que não sofrerá na campanha o boicote dos “companheiros” fiéis ao líder máximo, o Stalin petista?
 
Creiam, é duro escrever essas coisas mesmo para quem nunca foi petista, mas, como eu, sempre foi de esquerda e a cada dia se decepciona mais com o que se passa na tela nacional. Aloysio Mercadante não é bobo, tem uma história impecável, o que não se pode dizer, por exemplo, de José Genoíno, mas essa é outra enfermaria. Sua postura no discurso desta manhã na tribuna do Senado é a de um homem comprometido até a medula com suas ideias, coisa rara nos dias que correm.
 
Foi em nome disso que ele capitulou ao apelo de Lula para continuar na liderança do partido no Senado, depois de haver anunciado a renúncia até pelo twitter, geringonça inventada para nos cobrar coerência. Pois Mercadante subiu e leu a carta escrita por Lula para fazê-lo desistir. Na véspera, não aceitara fazer o mesmo com a carta do presidente do PT, Ricardo Berzoini, que mandava os petistas do Conselho de Ética votarem a favor do Sarney.
 
Pobre Mercadante, viu a luta menor e não a maior. Não se submeteu à ordem do capataz, mas sucumbiu à chantagem emocional do fazendeiro. Ambas as cartas visavam ao mesmo objetivo: prendê-lo à liderança da bancada petista no Senado, mesmo depois de ele ter anunciado a renúncia e de haverem até cogitado seu sucessor. Paciente rebelde, Mercadante insiste que está saudável, embora seus pares no Senado detectem os sinais da doença que o vitima: ingenuidade política.
 
Sua situação me remete aos “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos, para os quais peço sua detida atenção:
 
“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
 
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
 
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
 
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
 
A não seguir os conselhos do poeta, mais dia, menos dia, Aloysio Mercadante saberá da sua substituição por um repórter furão ou pela notícia estampada na primeira página de algum jornal.

 

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