Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

7

de
setembro

Marina está no jogo

  As duas ministras em 2007.

Se fuçarem as coleções de jornais, o amável leitor ou a gentil leitora verão no primeiro semestre de 2007 a discussão, primeiro discreta, depois aberta sobre a execução de muitas obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, lançado em janeiro daquele ano como primeira grande iniciativa do segundo mandato do presidente Lula. Um programa de 250 bilhões de dólares! Foi destaque até na imprensa européia, pela dimensão e pela demonstração de ousadia e coragem.


Listou-se uma infinidade de obras, muitas destinadas a dotar o país da infraestrutura essencial ao desenvolvimento econômico e social de seu povo. Saneamento básico, casas populares, estradas, portos, produção de energia, tudo no rumo da universalização dos serviços, da água encanada à luz elétrica.


Esta introdução que já se alonga é para lembrar como é antigo o embate entre Dilma Roussef e Marina Silva em torno das obras do PAC. Termoelétricas, hidrelétricas, estradas, assentamentos humanos, tudo implicava o aumento do passivo ambiental que a ministra do Meio Ambiente tentava reverter, ou pelo menos conter. A visão predominante no governo, contudo, era outra, Lula até chegou a reclamar da demora nos licenciamentos ambientais das obras programadas, e tanto foi feito que deu-se a Mangabeira Unger poder para projetar o desenvolvimento da Amazônia, e Marina Silva pegou suas plantinhas e voltou ao Senado.


Hoje, as obras do PAC vão mal das pernas, por motivos vários, inclusive superfaturamento, desvio de dinheiro público, emprego de material inferior em obras e também obstáculos ambientais. Mas verifica-se uma mudança notável no discurso governista, de duas semanas para cá: a preocupação ambiental entrou no rol das intenções sinceras. Esta inclusão começou de forma discreta, com a saída de Marina do PT, intensificou-se com seu ingresso no Partido Verde e vem aumentando desde que sua candidatura à presidência começou a ganhar corpo.


A discussão é boa, porque o modelo de desenvolvimento sustentável defendido por Marina e pelos verdes do mundo todo bate frontalmente com o que se pratica no Brasil desde o descobrimento. Aliás, parece que não aprendemos muito desde então, neste e em outros aspectos, mas esta é outra história. Para termos uma ideia pálida desta complexa questão, basta acompanhar a euforia do governo, dos governadores e do Congresso Nacional com o Pré-Sal. O país do biocombustível, dos carros flex, mergulha de cabeça, sem trocadilho, na busca de combustível fóssil a pelo menos cinco mil metros no fundo do mar, uma matriz energética condenada por poluente em todo o mundo desenvolvido e por escassa e cara a cada dia, a cada prospecção.


Os resultados econômicos do Pré-Sal, se acontecerem, virão entre 15 e 20 anos, quando cientistas preveem alternativas energéticas substituindo gradativa e progressivamente a gasolina e o querosene. Será que o Brasil estará condenado a uma busca economicamente duvidosa, além de ecologicamente infrutífera? Este debate constará da agenda da campanha presidencial do ano que vem, com certeza, até porque pela primeira vez a questão ambiental estará em primeiro plano e as atenções internacionais estarão voltadas para o processo sucessório brasileiro. Depois de um operário, o país terá a consciência verde global no poder?


Mas não só na agenda ambiental já se percebe o incômodo provocado pela provável candidatura de Marina Silva. Dia desses, Dilma Rousseff recebeu a visita de líderes evangélicos na sede do governo, para uma oração por sua saúde, que o país sabe combalida por um câncer. Os jornais e seus sites fizeram uma festa. A bispa Sônia Hernandez e seu marido, o também bispo Estevão Hernandez, que pagaram cadeia nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, apareceram em todas as imagens, como representantes da igreja Renascer em Cristo.


Também estavam na oração pela candidata petista o senador Marcelo Crivela, ex-bispo da Universal, e o deputado bispo Rodovalho, da Sara Nossa Terra, em Brasília. O pretexto foi a criação do Dia da Marcha para Cristo, celebrada em várias datas ao longo do ano em muitos estados. Mas se o pretexto era este, melhor teria sido orar com Lula para que tenha sucesso no seu fim de governo. Ou pelo vice José Alencar, que anda precisado e pedindo orações de todos.


Na realidade, oraram por Dilma porque Marina Silva é da Assembleia de Deus, a mais antiga denominação evangélica no país. Contrariamente às neopentecostais presentes no palácio, a Assembleia não segue a moderna doutrina da prosperidade, que promete aos seguidores recompensa financeira pelo dízimos e ofertas nos seus concorridos cultos. Certamente nesta seriedade de princípios estava a razão de Lula, às vezes, chamar ao seu gabinete a então ministra Marina para orar de mãos dadas por ele e pelo governo.

Arquivado em: Política I

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