Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

5

de
março

“Amandla!”

Não concordo com quem viu “Invictus” como filme sobre um time de rugby na África do Sul. Obviamente, é uma metáfora muito bem conduzida por Clint Eastwood, desde a cena de abertura, que mostra os brancos de um lado e os negros de outro da estrada por onde passou Nelson Mandela quando foi libertado. Uns jogam rugby, outros futebol. O rugby é o esporte nacional, mas os negros torcem sempre pelo adversário do time africano, em protesto contra o apartheid.

Quando Mandela (ou Madiba, na sua língua tribal) assume a presidência do país nas primeiras eleições em que negros votaram, toma como desafio transformar o time de rugby em paixão nacional, aproveitando a Copa do Mundo de 1996, realizada na África do Sul. O rugby é a metáfora política e ideológica sul-africana naquele momento. Na política da cooptação da minoria branca ao governo de maioria negra, Mandela vai contra seus seguidores e familiares para fazer do “Bokke” a seleção nacional contra os adversários de nações tradicionalmente mais fortes no esporte.

Depois de dobrar a resistência inicial dos negros que propunham eliminar a identidade do time de rugby, um dos primeiros passos de Mandela é chamar para um chá no palácio presidencial o capitão do time, François, com ampla cobertura da imprensa. Na conversa, ensina ao jovem desportista que um líder precisa enxergar além da sua capacidade pessoal e dos seus liderados. Quando a noiva lhe pergunta o que o presidente disse, François resume: “Acho que ele quer que ganhemos da Copa do Mundo”.

Mas antes mesmo de ir ao encontro de Mandela, comentando em casa o convite com os familiares céticos e racistas, a empregada negra se intromete: “Por favor, diga a ele que o ônibus é muito caro e ruim”. Ela já entendia que o país passava por transformações irreversíveis, enquanto os patrões gastavam tempo em ironias ferinas e numa inútil resistência.

Mandela mandou que os “Bokke” visitassem favelas para ensinar os rudimentos do rugby às crianças – o que fazem meio a contragosto, mas se rendem quando aquele bando de pirralhos pobres correm em coro para o único jogador negro do time, gritando seu nome “Chester”. Os meninos conquistam os brutamontes que, por sua vez, se rendem ao planos ideológicos e políticos de Mandela, ainda sem saber.

Várias passagens do filme reforçam a metáfora inicial, mas as cenas mais marcantes se passam no estádio onde os “Bokke” derrotam os “All Black”, até ali imbatíveis neo-zelandeses. É o clímax, a demonstração de que a África do Sul estava irmanada em torno do esporte nacional, do time que mantinha as cores e o escudo dos tempos do apartheid e mostrava-se, com seguidas vitórias (daí o título do filme), capaz de representar o orgulho de um país renascido do rancor e do racismo para uma república democrática multirracial.

Quando Mandela pisa o gramado para cumprimentar os jogadores antes da partida, vestindo a camisa com o número de François e o boné com que outros jogadores o presentearam, o estádio superlotado grita em uníssono “Nelson! Nelson!”. Não ovacionam Mandela, o mito, o herói, o perseguido político de uma vida inteira. Gritam o prenome com o qual se identificam, o nome do grande responsável pelo que está por acontecer no Ellis Park Stadium e na África do Sul.

Eastwood ainda se permite uma última brincadeira dentro da metáfora, ao mostrar lances de um menino negro ouvindo a decisão da copa no rádio de um carro da polícia. Enxotado como um cachorro, ele insiste em ficar próximo e continua se chegando, já tolerado pelos policiais, até que no final é carregado por eles em triunfo, com o boné de polícia na cabeça. Magistral.

A única coisa que não entendi é o grito “Amandla!”, quase como saudação ou palavra de ordem, ou mesmo uma senha, ouvido da boca de alguns personagens ao longo do filme, inclusive do próprio Nelson Mandela. Vou perguntar assim que chegar lá para a Copa do Mundo – de futebol, claro.

Arquivado em: Cultura, Política I

2 Comentários »

  1. Comentário por JUNEIA BATISTA — 13 13UTC maio 13UTC 2010 (15:06)

    pODER PARA O POVO EM ZULU

  2. Comentário por JUNEIA BATISTA — 13 13UTC maio 13UTC 2010 (15:07)

    amandla significa poder para o povo em zulu

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