Quando a luz apagou, pouco depois das dez da noite do dia 10, me lembrei do Hugo Chávez recomendando aos venezuelanos manter uma lanterna junto à cama para as idas noturnas ao banheiro. Em seguida, me lembrei do Chávez pedindo banhos de três minutos “no más”. Depois de me lembrei do papelão que Chávez vem fazendo, depois de ter espalhado o rastilho do sonho de Simón Bolívar, o Libertador que levou à independência a sua Venezuela natal, e os vizinhos Colômbia, Equador e Bolívia, na primeira metade do século 19.
Lutou ao lado de Bolívar o brasileiro José Inácio de Abreu e Lima, pernambucano, filho de um ex-padre executado na luta contra os portugueses em 1817. É considerado herói da independência venezuelana e mais respeitado lá do que por aqui. Há o município em Pernambuco chamado Abreu e Lima, onde a Petrobras e a PDVSA, similar venezuelana, tentam construir uma refinaria, até o momento sem muito sucesso. Mas tudo isso é outra história, meu assunto aqui é o apagão.
Foi um cataclismo, como enchentes diluvianas, tsunamis inéditos, algo “por el estilo” (olha o Chávez se infiltrando de novo. Por que não se cala?) Na manhã seguinte a pergunta mais ouvida era “Onde você estava na hora do apagão?” Em segundo lugar, focinho com focinho, “O que você estava fazendo na hora do apagão?”
Uma notinha de coluna social registra a homenagem de amigos de um sushi-man morto recentemente. Reunidos no restaurante onde ele trabalhava, na hora exata em que alguém se levantou e propôs um brinde à sua memória, lá se foi a luz, e todos caíram no choro.
O Bracarense, boteco da melhor qualidade do Leblon, várias vezes laureado com o título de melhor chope do Rio de Janeiro, estava lotado, como sempre, quando a luz apagou, pouco depois das dez. O gerente ligou o gerador e o bar foi por algumas horas uma ilha de luz nas trevas.
Também a Madonna, hospedada no Hotel Fasano, em Ipanema, escapou da escuridão, graças aos geradores do hotel, segundo dizem supermodernos e comprados há pouco, depois de muita discussão entre os sócios. Ainda bem, porque nem o escort brasileiro da cantora, que atende pelo nome de Jesus Luz, daria jeito no breu geral.
Não esbarrei em ninguém que tenha ficado preso no elevador, embora saiba que houve inúmeros pedidos de socorro aos bombeiros, nem de cirurgias graves interrompidas por instantes, até acionarem o gerador do hospital. Mas deve ter havido casos inusitados, não registrados pela grande mídia, que nos poupa das notícias escabrosas, como suicídios – e não dos escândalos políticos.
Mas diga aí: o que você estava fazendo na hora do apagão? Eu, graças a Deus, estava em casa, jantado, de olho na tevê à espera do sono. Acabou a luz e fui dormir. Já o Cosme, nego esperto aqui da repartição, quando lhe perguntaram, tascou na lata: “Sexo. E como ela é nega também, ficou tudo uma beleza”.








