3
de
setembro
Maldade 3
Mais de 70% dos brasileiros não têm acesso à internet, segundo levantamento feito por duas ONGs. De que lado você está, afinal?
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a cara e a voz do Museu da Imagem e do Som carioca não foi ouvido
Na festa do anúncio do projeto arquitetônico vencedor do concurso para a construção do novo Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, na segunda-feira desta semana, entre dezenas de convidados ilustres uma ausência em especial foi percebida pela maioria: a de Ricardo Cravo Albin, responsável pelo MIS por 18 anos e artífice da engenharia política que garantiu a sobrevivência da memória da mais autêntica cultura popular brasileira durante o pior período da ditadura militar.
“Não quero entrar numa discussão sem sentido. Muita gente tem me ligado para perguntar e falar bem e mal, mas eu não vou falar mal do meu filho”, diz, diplomático, entre goles de café depois do almoço e antes de completar seu raciocínio: “As pessoas não têm que se atrelar a outras pessoas, mas sim a ideias, isso é o que interessa: a manutenção da essência do museu”.
O MIS do Rio de Janeiro, pioneiro no país, foi fundado em 1965 pelo governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, e em alguns meses passou às mãos de Cravo Albin, “não fundador, mas estruturador do MIS”, como se considera.
“Hoje me orgulho de ter fundado 18 museus da imagem e do som pelo Brasil afora. O primeiro foi o de São Paulo, entregue a Rudá de Andrade (filho de Oswald de Andrade) e que hoje é um dos principais do país”, comenta o misto de advogado que não advogou e jornalista que se dedicou ao registro do passado e não do presente.
Ricardo Cravo Albin estranha a maneira como se dá a evolução do MIS carioca, mas não lhe agrada a mudança: “Copacabana não precisa de museu, de movimento. Já é muito movimentada. Além disso, o novo museu vai destoar de toda a arquitetura da Avenida Atlântica”, comenta, aproveitando para uma alfinetada:
“Na terra de Niemeyer, promove-se um concurso internacional e vence um escritório americano! Isto para não falar que já existe um projeto, do arquiteto Glauco Campello, para a construção do prédio anexo do MIS, ao lado da sede na Praça XV”.
A sede é um prédio histórico, construído para abrigar a exposição comemorativa do centenário da independência, em 1922. No livro “Rastros de Memória”, em que conta a história do museu, Ricardo Cravo Albin incluiu a foto da maquete baseada no projeto de Campello.
“O natural seria construir o anexo ao prédio histórico”, adverte. “Inclusive, fico muito preocupado com o destino que se dará ao prédio do Pavilhão de Exposições. Espero que seja preservada sua importância histórica e cultural”.
O memorialista lembra que ao assumir o MIS, ele era um museu sem dinheiro e quase se acervo, numa época em que o país começava a sofrer a asfixia política e cultural da ditadura militar. Era preciso muito engenho e arte para levar adiante o projeto:
“As pessoas chegavam para mim perguntando por que fazer um museu do cinema”, ele ri. “Eu explicava que era um museu para a imagem e o som, mas não havia nada parecido no Brasil, nem no mundo”.
Assim, Cravo Albin inventou a série “Depoimentos para a Posteridade”, aberta com o de João da Baiana, de repercussão imediata na grande imprensa. Para determinar quem deveria gravar sua história, criou vários conselhos, cada um com 30 a 40 membros escolhidos entre artistas, estudiosos, jornalistas, professores, músicos.
Além de indicar as personalidades, os conselheiros davam aulas no próprio museu para turmas abertas aos interessados nos temas dos cursos, de música erudita a esportes, passando por literatura, cinema, teatros, artes plásticas e cinema.
“Cobrava-se barato, o museu ficava com 80% e o professor com 20%, mas mesmo assim não havia dinheiro nem para as fitas de gravação. Em nome do MIS, eu pedia as gravações da Aliança para o Progresso, apagava as fitas e gravava os depoimentos”, ele revela, citando Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, entre tantos que gravaram suas vozes e histórias para a posteridade em fitas originais do programa norte-americano de propaganda ideológica.
No governo do general Ernesto Geisel, quando a situação geral do país ficou mais pesada, Ricardo Cravo Albin chegou a desviar material da representação da Sunab no Rio, onde trabalhava como assessor de imprensa, e por isto quase foi preso:
“Fui pessoalmente ao general João Batista Figueiredo, chefe do SNI, e expliquei que desviava papel higiênico, lápis, coisas de escritório, para ajudar o museu. Ele me ouviu e disse: ‘Pode ficar tranquilo que eu conheço bandido há muito tempo. Você não está roubando, é um cara honesto’. E eu escapei do inquérito e da cadeia”.
Com o tempo, ele criou o Golfinho de Ouro, para destaques na vida cultural, e o Estácio de Sá, para os mecenas da área, dois prêmios anuais entregues pelo governador em solenidades que mereciam cobertura de toda a imprensa.
Pelo que fez não só no Rio, mas nos 18 estados onde disseminou os museus da imagem e do som, Ricardo Cravo Albin esperava ser ouvido agora, sobretudo porque considera-se amigo de Sérgio Cabral, pai do governador “que eu peguei no colo, veja você” e também porque sua consultoria é solicitada até no exterior, como no futuro MIS de Angola, projeto da construtora Odebrecht.
“Mas não vou apequenar a questão. O importante mesmo é que o museu será enriquecido com novas tecnologias e mais espaço”, finaliza, embarcando no carro para o fim de semana em Paraty: “Vou renovar as forças”.
É perigoso, mas vou correr o risco e escrever sobre a censura aplicada à psicóloga Rosângela Rufino pelo Conselho Federal de Psicologia no último dia do mês passado pelo fato de ela oferecer tratamento a homossexuais cansados da vida dupla que levam e anseiam voltar ao seu sexo natural. Vida dupla sim, não acredito que gays assumidos, vivendo as relações afetivas que escolheram, procurem terapia para mudar. Pacientes da psicóloga devem ser pessoas insatisfeitas com seu comportamento, ou não estariam nem aí.
Faz quase dois anos 57 índios guaranis deixaram Paraty, no litoral sul fluminense, e se fixaram numa área de sambaqui na praia de Camboinhas, em Niterói. Sambaqui é sítio religioso, é onde estão seus mortos há séculos, onde os pajés conversam com os espíritos. Por isso eles foram para lá. A área de sambaqui em Camboinhas se estende dos morros que se divisam no horizonte ao mar, inclui todo o bairro, mas o grupo de guaranis se contentou com a extremidade da praia, onde a presença dos brancos não é tão intensa quanto no resto do lugar.

Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
A assinatura do termo de concessão por 20 anos do Parque Lage, situado dentro do Parque Nacional da Tijuca, no bairro carioca do Jardim Botânico, ao governo do estado, no último sábado, reuniu o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e as secretárias estaduais de Cultura, Adriana Rattes, e do ambiente, Marilene Ramos, num ato revestido de solenidade e com forte conteúdo emocional. Ali funciona a Escola de Artes Visuais do governo fluminense, criada em 1975 como espaço de criação, reflexão e protesto contra a ditadura militar, em seu período mais duro para a cultura e as artes.
Nas últimas semanas tenho andado ocupado demais para escrever crônicas, mas nesta tirei uma folga e vou meter minha colher velha na história de Simonal, cuja memória é resgatada em documentário badalado que, pelas resenhas, não confirma nem desmente a triste fama que se abateu sobre o cantor mais popular do país na virada dos anos 1960 para os 70. Ele era tão famoso que teve programa próprio na TV Tupi (se não me engano) apresentado num cenário imitando o teto de um prédio, com antenas de televisão e caixa de máquinas de elevador. Não me lembro do nome, mas era uma das atrações típicas da época, apresentadas por cantores, como também foi “O fino da bossa”, da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues.
Wilson Simonal era um sujeito simpático, tinha um vozeirão e criava empatia com qualquer público. Chegou a “reger” o coro de 35 mil pessoas no Maracanazinho, em “Meu limão, meu limoeiro”, como registra a história da MPB. Convivia bem com a turma da bossa-nova e da jovem guarda, o que não era pouco naquela época em que as guitarras elétricas entronizavam o tropicalismo no gosto popular da rapaziada. “Sá Marina”, “Nem vem que não tem”, “País tropical” e o citado limoeiro foram alguns dos grandes sucessos do sorridente Simonal, negro no meio dos brancos, o outro lado da moeda do sisudo Milton Nascimento, que despontou na época e preserva seu lugar até os dias atuais, como também Jair Rodrigues.
Mas Wilson Simonal era o máximo, tinha um quê de Roberto e Erasmo na alienação política, no descompromisso com a juventude que peitava a ditadura, levava porrada e eventualmente se exilava – Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré etc etc etc. Ocupava espaço generoso no cenário musical pelo valor próprio e pelo absoluto conformismo com o que se passava no Brasil de Médici, do slogan “Ame-o ou deixe-o” a empurrar para o exterior os insatisfeitos e os perseguidos. Simonal era um “menino bom”, como Ivan Lins, que não tentava influenciar a juventude com ideias exóticas, como Gonzaguinha, por exemplo.
Eu era repórter do “Correio da Manhã” quando recebi a pauta para uma entrevista coletiva de Simonal, num amplo apartamento na Zona Sul carioca. Estava no começo da carreira, cobria os festivais internacionais da canção dirigidos por Augusto Marzagão e tinha estado no Maracanazinho na célebre noite do coro dos 35 mil espectadores. Como todo carioca daquele período, conhecia e era fã de Wilson Simonal, por isso rumei feliz e contente para a coletiva.
Na espaçosa sala do apartamento os repórteres encontraram toda a parafernália característica das filmagens: refletores, rebatedores, microfones suspensos, câmeras bem posicionadas. Acomodamo-nos onde nos indicaram e entrou na sala o cineasta Domingos de Oliveira, para nos explicar que a entrevista seria para o filme “É Simonal”, que dirigia e seria lançado ainda naquele semestre. Dito isto, saiu de cena e entrou o astro, sorridente, braços abertos, saudando “a imprensa livre do Brasil”. Era deboche, claro, mas soava falso demais na voz de Simonal, que nunca abrira a boca para comentários como aquele. Todos rimos e fizemos a entrevista, filmada por duas ou três câmeras e enriquecida por atores menores no papel de repórteres também.
Foi a única vez que estive frente a frente com Wilson Simonal e confesso que sua declaração fora de propósito na filmagem abalou a simpatia que tinha por sua incomparável figura. Nenhum artista, fosse cantor, ator, atriz, compositor, brincava com política naquele tempo. Ou era ou não era, não havia espaço para dubiedades. Por isso não senti como traição a denúncia de que Simonal havia mandado torturar seu contador, como estourou na imprensa censurada que transformou o caso em denúncia de tortura dentro do Dops carioca, coisa jamais admitida pela polícia e pelos militares.
Na sequência, surgiram as ligações de Simonal com agentes policiais e suspeitas de colaboração com a ditadura, através da delação. Relações escusas entre artistas e a repressão política não eram propriamente uma novidade: desde os tempos de César de Alencar na Rádio Nacional falava-se de colaboração entre o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo e o mundo artístico. O contador que trabalhava para Wilson Simonal contou o sequestro por agentes civis e a confissão de roubo sob tortura no prédio do Dops e os jornais deitaram e rolaram, até porque os censores, estranhamente, não cortaram uma linha, uma vírgula. A ditadura mostrou o caso como questão pessoal e não institucional.
Assim, Wilson Simonal viu ruir, em semanas, todo o prestígio construído em anos e anos de trabalho sério, dedicado e plenamente aceito pelo público. Diz a voz das ruas que delação é covardia que não se perdoa. Delação e tortura, menos ainda. E em tempos de perseguição política nem pensar. Como era possível Chico, Caetano, Vandré, Gil terem de sair do país e Simonal compactuar com os procedimentos de que eles foram ou seriam vítimas? Uma coisa é cantar “o amor é o meu país”, como Ivan Lins, notório alienado, outra bem diferente é ser amigo dos canas e usá-los para torturar um chefe de família pobre como a imensa maioria dos admiradores de Simonal.
O público se identificou com o contador, ninguém deu razão a Simonal. A imprensa viu no episódio a chance de denunciar que havia tortura na ditadura, o regime usou a mídia para fingir que não admitia esse tipo de comportamento. Mas nenhum policial foi punido, o contador não foi indenizado e só Wilson Simonal saiu perdendo. Perdeu por sua própria falta de sensibilidade política, por se congregar com torturadores, por não se arrepender em público do incrível deslize que cometeu.
Alguns anos mais tarde, já sobrevivendo em São Paulo e em precária situação profissional e pessoal, Wilson Simonal deu entrevista a José Trajano, hoje na ESPN Brasil, e atacou a imprensa, o público, muita gente, menos o Dops. O repórter registrou a presença de homens mal encarados na sala e, à saída, percebeu que estivera trancado a chave durante toda a conversa. A publicação da entrevista era prova de que o Brasil, lentamente, mudava. Simonal, infelizmente, não.
Quais coisas são de fato relevantes, e quais desimportantes? Quem são os medalhões que nos olham com altivez e soberba, e como se chamam os meninos e meninas, os velhos e todos os miseráveis que nos abordam nas calçadas imundas da zona nobre da cidade? Quantos dias, quantas horas, quanto tempo demorará até entendermos a inutilidade dos relógios, a ineficácia dos calendários? Onde está o Deus de tudo e de todos, que deixa seus filhos errantes pela vida, de tropeço em tropeço, de queda em queda, caminhando em direção ao nada, chegando a lugar nenhum?
Camiseta encomendada por soldados israelenses na Faixa de Gaza, no corpo de um modelo. O texto é claro: "1 tiro 2 mortes", embaixo do desenho de uma palestina grávida no alvo. Autoridades israelenses viram mau gosto na iniciativa, mas eu vejo o absurdo de um povo perseguido desde o Velho Testamento, vítima da "catástrofe" na segunda guerra mundial, exibir a face genocida em sua manifestação mais primária.