Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

3

de
setembro

Maldade 3

Mais de 70% dos brasileiros não têm acesso à internet, segundo levantamento feito por duas ONGs. De que lado você está, afinal?

3

de
setembro

Moscas imortais

 

Fernando Affonso Collor de Mello é o mais novo imortal da Academia Alagoana de Letras. E daí?, perguntarão os céticos e os cínicos, se até Getúlio Vargas também foi imortal, e da Academia Brasileira de Letras! Que mal há em conceder ao ex-presidente da República honraria estadual, na verdade só um pouquinho mais provinciana do que o chamado “Petit Trianon” fundado por Machado de Assis?
 
A relação das obras de Fernandão é reveladora: “Reforma política e sistema de governo” possivelmente trata das mudanças que não aconteceram e do presidencialismo reafirmado sobre o parlamentarismo no famoso plebiscito de 1993. “O desafio de Maceió” é ficção política e não romance sobre um duelo acontecido na pacífica capital alagoana. “Maceió: 20 anos em 3” deve ser sobre o avanço da miséria durante a administração do jovem prefeito, em 1979.
 
 “Manual dos municípios” pode ser publicação da Telelistas, com endereço, telefone, fax e CEP das prefeituras de todo o país. “Brasil, um projeto de reconstrução nacional” tenho certeza de que é o ideário do extinto Partido da Reconstrução Nacional, o PRN que o alçou à presidência da República, dez anos depois. E “Relatos da História” relaciona contos infantis que Dona Léda, sua “dearest mommy”, lhe contava à noite, para chamar o sono do inquieto rebento.
 
Prolífico desse jeito, é de estranhar que Collor não ocupe cadeira da ABL, ao lado de José Sarney, outro beletrista de escol, autor de obras mais apreciadas na França do que no Maranhão, e do não menos festejado Marco Maciel, autor de obras ainda mais ignotas. Unindo as existências dos três personagens, fatos e circunstâncias curiosos:
 
Em 1979, Fernando Collor foi nomeado prefeito pelo governador de Alagoas, Guilherme Palmeira, e sucedeu José Sarney depois de uma campanha eleitoral em que só não o chamou de “bigodudo”. Marco Maciel foi líder do governo Collor no Senado e, logo mais, escolhido vice de Fernando Henrique, em 1994, depois que Guilherme Palmeira foi preterido em função de acusações de irregularidades na Comissão Mista do Orçamento. Como vemos, não mudam nem as moscas…
 
Bem, Guilherme Palmeira não virou imortal, mas, vivíssimo, descolou uma vaga de ministro e chegou a vice-presidente do Tribunal de Contas da União. Hoje, com de 70 anos, aposentou-se. Se tiver ânimo, pode entrar também para a Academia Alagoana de Letras e ser colega do antigo pupilo, com apoio dele, de Renan Calheiros e do terceiro senador pelo estado, João Tenório, suplente de Teotônio Vilela Filho, herdeiro político de Teotônio Vilela, que começou na UDN em 1948, bandeou para a Arena quando os militares extinguiram os antigos partidos e foi para a oposição em 1979, quando a ditadura começou a agonizar.
 
Morreu em 1983 não mais como usineiro reacionário, mas como entusiasta da eleição direta para presidente e amigo da cantora Fafá de Belém, musa das diretas. Mas esta é outra história. 

 

15

de
agosto

Ricardo Cravo Albin

a cara e a voz do Museu da Imagem e do Som carioca não foi ouvido

Na festa do anúncio do projeto arquitetônico vencedor do concurso para a construção do novo Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, na segunda-feira desta semana, entre dezenas de convidados ilustres uma ausência em especial foi percebida pela maioria: a de Ricardo Cravo Albin, responsável pelo MIS por 18 anos e artífice da engenharia política que garantiu a sobrevivência da memória da mais autêntica cultura popular brasileira durante o pior período da ditadura militar.

“Não quero entrar numa discussão sem sentido. Muita gente tem me ligado para perguntar e falar bem e mal, mas eu não vou falar mal do meu filho”, diz, diplomático, entre goles de café depois do almoço e antes de completar seu raciocínio: “As pessoas não têm que se atrelar a outras pessoas, mas sim a ideias, isso é o que interessa: a manutenção da essência do museu”.

O MIS do Rio de Janeiro, pioneiro no país, foi fundado em 1965 pelo governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, e em alguns meses passou às mãos de Cravo Albin, “não fundador, mas estruturador do MIS”, como se considera.

“Hoje me orgulho de ter fundado 18 museus da imagem e do som pelo Brasil afora. O primeiro foi o de São Paulo, entregue a Rudá de Andrade (filho de Oswald de Andrade) e que hoje é um dos principais do país”, comenta o misto de advogado que não advogou e jornalista que se dedicou ao registro do passado e não do presente.

Ricardo Cravo Albin estranha a maneira como se dá a evolução do MIS carioca, mas não lhe agrada a mudança: “Copacabana não precisa de museu, de movimento. Já é muito movimentada. Além disso, o novo museu vai destoar de toda a arquitetura da Avenida Atlântica”, comenta, aproveitando para uma alfinetada:

“Na terra de Niemeyer, promove-se um concurso internacional e vence um escritório americano! Isto para não falar que já existe um projeto, do arquiteto Glauco Campello, para a construção do prédio anexo do MIS, ao lado da sede na Praça XV”.

A sede é um prédio histórico, construído para abrigar a exposição comemorativa do centenário da independência, em 1922. No livro “Rastros de Memória”, em que conta a história do museu, Ricardo Cravo Albin incluiu a foto da maquete baseada no projeto de Campello.

“O natural seria construir o anexo ao prédio histórico”, adverte. “Inclusive, fico muito preocupado com o destino que se dará ao prédio do Pavilhão de Exposições. Espero que seja preservada sua importância histórica e cultural”.

O memorialista lembra que ao assumir o MIS, ele era um museu sem dinheiro e quase se acervo, numa época em que o país começava a sofrer a asfixia política e cultural da ditadura militar. Era preciso muito engenho e arte para levar adiante o projeto:

“As pessoas chegavam para mim perguntando por que fazer um museu do cinema”, ele ri. “Eu explicava que era um museu para a imagem e o som, mas não havia nada parecido no Brasil, nem no mundo”.

Assim, Cravo Albin inventou a série “Depoimentos para a Posteridade”, aberta com o de João da Baiana, de repercussão imediata na grande imprensa. Para determinar quem deveria gravar sua história, criou vários conselhos, cada um com 30 a 40 membros escolhidos entre artistas, estudiosos, jornalistas, professores, músicos.

Além de indicar as personalidades, os conselheiros davam aulas no próprio museu para turmas abertas aos interessados nos temas dos cursos, de música erudita a esportes, passando por literatura, cinema, teatros, artes plásticas e cinema.

“Cobrava-se barato, o museu ficava com 80% e o professor com 20%, mas mesmo assim não havia dinheiro nem para as fitas de gravação. Em nome do MIS, eu pedia as gravações da Aliança para o Progresso, apagava as fitas e gravava os depoimentos”, ele revela, citando Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, entre tantos que gravaram suas vozes e histórias para a posteridade em fitas originais do programa norte-americano de propaganda ideológica.

No governo do general Ernesto Geisel, quando a situação geral do país ficou mais pesada, Ricardo Cravo Albin chegou a desviar material da representação da Sunab no Rio, onde trabalhava como assessor de imprensa, e por isto quase foi preso:

“Fui pessoalmente ao general João Batista Figueiredo, chefe do SNI, e expliquei que desviava papel higiênico, lápis, coisas de escritório, para ajudar o museu. Ele me ouviu e disse: ‘Pode ficar tranquilo que eu conheço bandido há muito tempo. Você não está roubando, é um cara honesto’. E eu escapei do inquérito e da cadeia”.

Com o tempo, ele criou o Golfinho de Ouro, para destaques na vida cultural, e o Estácio de Sá, para os mecenas da área, dois prêmios anuais entregues pelo governador em solenidades que mereciam cobertura de toda a imprensa.

Pelo que fez não só no Rio, mas nos 18 estados onde disseminou os museus da imagem e do som, Ricardo Cravo Albin esperava ser ouvido agora, sobretudo porque considera-se amigo de Sérgio Cabral, pai do governador “que eu peguei no colo, veja você” e também porque sua consultoria é solicitada até no exterior, como no futuro MIS de Angola, projeto da construtora Odebrecht.

“Mas não vou apequenar a questão. O importante mesmo é que o museu será enriquecido com novas tecnologias e mais espaço”, finaliza, embarcando no carro para o fim de semana em Paraty: “Vou renovar as forças”.

13

de
agosto

Sobre bichas e sapatões

É perigoso, mas vou correr o risco e escrever sobre a censura aplicada à psicóloga Rosângela Rufino pelo Conselho Federal de Psicologia no último dia do mês passado pelo fato de ela oferecer tratamento a homossexuais cansados da vida dupla que levam e anseiam voltar ao seu sexo natural. Vida dupla sim, não acredito que gays assumidos, vivendo as relações afetivas que escolheram, procurem terapia para mudar. Pacientes da psicóloga devem ser pessoas insatisfeitas com seu comportamento, ou não estariam nem aí.

É curioso que o conselho tão zeloso neste caso não revele o mesmo empenho em relação aos “bispos” da telinha e suas promessas de curar depressão, ansiedade e até falta de dinheiro, que, esta sim, sabe-se não ser doença e, na realidade, nem opção pessoal, mas antes contingência da vida. São líderes religiosos ou psicólogos, afinal? O conselho parece mais preocupado com a orientação sexual do que com o charlatanismo descarado pela tevê.
 
Rosângela é evangélica, ou seja, minoria religiosa num mar de católicos da boca pra fora ou sinceros. Segue preceitos bíblicos, sabe que Deus abomina o pecado, mas ama o pecador, como atestam inúmeros exemplos no Novo Testamento. A terapia que ela proporciona não é eficaz para quem não a procura. Não força ninguém a nada, não convence ninguém de que deve ser macho ou fêmea. Mesmo assim, foi denunciada e punida.
 
Se Rosângela oferecesse terapia na mão inversa, “ajudando” indecisos a enveredar pelo mundo do homossexualismo, seria considerada psicóloga contemporânea, atenta aos novos tempos, daria entrevistas no rádio, na tevê, nas revistas, nos jornais. Daria palpite até sobre a queda da taxa de juros e a seleção do Dunga. Ganharia tanto dinheiro que até poderia comprar Neverland.
 
Mas não. Rosângela rema contra a maré e ainda diz que homossexualismo tem cura. Alguns “bispos” dizem a mesma coisa, mas não são psicólogos, o conselho não tem nada com isso. Sua psicologia é restrita ao mundo dos diplomados e aos ditames dos novos tempos. No fundo, acha que esse negócio de papai e mamãe já era, legal agora é papai e papai, mamãe e mamãe. Quem é contra é preconceituoso.
 
O movimento homossexual é mais e mais poderoso, promove dia de orgulho, elege cidades amigas, alimenta um novo turismo mundial, de renda dupla e sem filhos, ou no original “double income, no kids”. Homossexuais têm nichos próprios de consumo, lojas voltadas para eles, da alimentação ao vestuário, publicações específicas e são tão influentes que veem intransigência onde ainda não conseguem acesso.
 
O movimento homossexual internacional acusa, por exemplo, a igreja de ser intransigente ao não fazer casamentos entre pessoas do mesmo sexo, esquecido de que igreja é como clube, tem seus regulamentos e suas imposições. Aceita quem quer, quem não quiser funde o seu clube ou crie sua seita, seus ritos e sacramentos. Sem intransigência.
 
A psicóloga Rosângela é exemplar da intransigência homossexual. Se quer “ajudar” adolescentes a assumir outra sexualidade, tudo bem, senão, pra fogueira. É uma espécie de Inquisição moral que me faz lembrar a reflexão de um escritor espirituoso cujo nome não lembro agora, e que disse mais ou menos o seguinte:
 
“Quando eu era criança, homossexualismo era um dos maiores tabus morais da sociedade. Quando era jovem, veio a liberação sexual, as drogas, o questionamento dos tabus sociais, entre eles o homossexualismo. Tinha até um certo charme, um verniz intelectual. Agora que sou homem maduro, o homossexualismo virou moda, é aceito e até incentivado, há pais orgulhosos dos filhos homossexuais. Eu só espero morrer antes que se torne obrigatório”.
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5

de
agosto

Índio quer apito

Faz quase dois anos 57 índios guaranis deixaram Paraty, no litoral sul fluminense, e se fixaram numa área de sambaqui na praia de Camboinhas, em Niterói. Sambaqui é sítio religioso, é onde estão seus mortos há séculos, onde os pajés conversam com os espíritos. Por isso eles foram para lá. A área de sambaqui em Camboinhas se estende dos morros que se divisam no horizonte ao mar, inclui todo o bairro, mas o grupo de guaranis se contentou com a extremidade da praia, onde a presença dos brancos não é tão intensa quanto no resto do lugar.

Acontece que Camboinhas cresce a olhos vistos desde meados da década passada. Em 1991 tinha 926 habitantes, em 2000, 2.863. Mais de 95,5% das casas têm esgotamento sanitário e água encanada, um dos mais altos índices do país. Os condomínios de luxo proliferam, empurrando pescadores e demais naturais para lugares afastados. Quem tem casa em Camboinhas é das classe A e B. Neste contexto, os guaranis resolveram ir para lá. Suas oito ocas foram queimadas no ano passado, foram ameaçados de morte, intimidados com faróis de carros sobre eles no meio da madrugada. Mas não arredaram pé.
 
Liderados por Lídia, a pajé, os guaranis de Camboinhas deixaram Paraty por causa dos brancos, que foram ocupando o lugar aos poucos, montaram uma feira literária internacional e hoje os índios não plantam mais para comer, compram no supermercado e trocam as ocas de palha por casas de alvenaria. Vendem seu artesanato aos escritores curiosos e ao público leitor da Flip e ganham mais do que antes. Estão satisfeitos.
 
Intrigado com a história de Lídia e sua família numerosa, fui à pequena aldeia de Camboinhas e conversei com ela. Confirmou caras feias, narizes torcidos, intimidações e ameaças e disse que os espíritos mandaram ficar ali mesmo, todas as vezes que ela os consultou, o que é praticamente toda noite. Ainda assim, ela sabe que o terreno é arenoso, impróprio para a cultura de milho, aipim, feijão e um ou outro vegetal que complementa a dieta rica em peixe e caça.
 
A possível solução é a transferência dos 57 guaranis para a Área de Proteção Ambiental da União na Barra de Maricá. O prefeito da cidade mobilizou quase todo o secretariado e Lídia examinou o lugar e escolheu uma área entre as praias de Itaipuaçu e São José. Parece que falta pouca burocracia para eles se mudarem de Camboinhas. “Lá a terra é boa pra plantar, não como aqui”, ela me disse, em maio.
 
Ontem, voltei a ter contato com os filhos de Lídia, o cacique Darci Tupã e seu irmão Wera Poty, ou Tonico Benites, mestre e doutorando em antropologia social pela UFRJ. Os dois moram na aldeia e a voz de Tonico ao telefone era às vezes cortada pelo canto estridente de um galo guarani.
 
A razão do novo contato é que a Defensoria Pública estadual facilitou a emissão da carteira de identidade aos 12 últimos que ainda tinham só a carteira da Funai, que reconhece a etnia e a condição de tutelado do portador. Ou seja, só prova que ele é índio da tribo guarani e que não pode viajar de avião nem tirar carteira de motorista sem autorização da fundação.
 
Depois da conversa, fiquei na dúvida. Os 57 guaranis saíram de Paraty para defender sua tradição e sua cultura, e foram para um sambaqui para ficar perto dos espíritos protetores. Como o homem branco e sua ganância sem limite também estão mais perto, vão se mudar para uma área de proteção ambiental isolada entre duas praias em Maricá. Para que a carteira de identidade? Para viajar de avião? Para tirar carteira de motorista? Tomara que não seja para beber e dirigir, que nem homem branco…
  O incêndio criminoso em Camboinhas. 
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21

de
junho

Augusto dos Anjos

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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21

de
junho

Espaço livre garantido

A assinatura do termo de concessão por 20 anos do Parque Lage, situado dentro do Parque Nacional da Tijuca, no bairro carioca do Jardim Botânico, ao governo do estado, no último sábado, reuniu o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e as secretárias estaduais de Cultura, Adriana Rattes, e do ambiente, Marilene Ramos, num ato revestido de solenidade e com forte conteúdo emocional. Ali funciona a Escola de Artes Visuais do governo fluminense, criada em 1975 como espaço de criação, reflexão e protesto contra a ditadura militar, em seu período mais duro para a cultura e as artes.

 
“Esta concessão simboliza a união a cultura com a ecologia”, disse Minc, aplaudido pelas secretárias e pelas dezenas de pessoas ao redor da piscina de pedra celebrizada pela cena da imensa feijoada no filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade. O clima era de descontração e sorrisos, “coroando uma luta de um ano e meio contra a burocracia de Brasília”, nas palavras do ministro. Desde sua posse no ministério, há um ano, Minc defendia a concessão do Parque Lage para a EAV, esbarrando em obstáculos da Secretaria de Patrimônio da União, do Ministério do Planejamento.
 
“Depois de muita conversa com o (ministro do Planejamento) Paulo Bernardo, prevaleceu o entendimento de que a SPU cuida do patrimônio; não da gestão. Assim, esse espaço de cultura, de convívio, de fantasia e loucura, continuará nas mãos da Escola de Artes Visuais pelos próximos 20 anos, prorrogáveis por mais 20 e mais 20, ‘forever’, dentro da Floresta da Tijuca, que é responsabilidade do Instituto Chico Mendes”. O ministro discursou em tom emocionado, refletindo o estado de espírito da maioria dos presentes.
 
Na noite da sexta-feira, véspera da assinatura do termo de concessão, alunos da escola e artistas participaram de uma performance ao redor da piscina, lembrando exatamente a filmagem de “Macunaíma”, em meados da década de 70. Foi também inaugurada a exposição “O Jardim da Oposição”, com fotos da época da luta libertária contra a censura e a opressão da ditadura, depoimentos gravados em vídeo por protagonistas e participantes daquela luta e impressos variados que circulavam entre os jovens da Escola de Artes Visuais, dirigida por seu idealizador, o artista plástico Rubens Gerchman. A exposição está aberta até 30 de agosto.
 
A escola de Artes Visuais ocupa o palacete onde viveu a cantora lírica Besanzoni Lage, uma construção sólida erguida em pedra no meio do parque que leva seu nome, aos pés do morro do Corcovado e do Cristo Redentor. Durante os chamados “anos de chumbo” ali se apresentaram sem censura Caetano Veloso, Jards Macalé, Luis Melodia e um dos mais freqüentes, o violinista Jorge Matuner. A escola também foi palco dos concertos de música dodecafônica de Joaquim Koellreuter e ainda sede do Instituto Freudiano do Brasil e do jornal “Lampião da Esquina”, fundado pelo novelista Aguinaldo Silva e
primeira publicação homossexual a se firmar no universo da imprensa alternativa,
 
Com o termo de cessão erguido na mão, o ministro Celso Minc encerrou o discurso de maneira apoteótica, arrancando novos e insistentes aplausos: “Este espaçço da Escola de Artes Visuais está disponível, em caráter oficial, a promover peças de teatro, exibição de filmes, fazer lançamento de livros, exposições, apresentações artísticas e musicais, leilões beneficentes – é para a escola fazer e acontecer. É proibido proibir!’"

22

de
maio

É Simonal

 

Nas últimas semanas tenho andado ocupado demais para escrever crônicas, mas nesta tirei uma folga e vou meter minha colher velha na história de Simonal, cuja memória é resgatada em documentário badalado que, pelas resenhas, não confirma nem desmente a triste fama que se abateu sobre o cantor mais popular do país na virada dos anos 1960 para os 70. Ele era tão famoso que teve programa próprio na TV Tupi (se não me engano) apresentado num cenário imitando o teto de um prédio, com antenas de televisão e caixa de máquinas de elevador. Não me lembro do nome, mas era uma das atrações típicas da época, apresentadas por cantores, como também foi “O fino da bossa”, da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues.

Wilson Simonal era um sujeito simpático, tinha um vozeirão e criava empatia com qualquer público. Chegou a “reger” o coro de 35 mil pessoas no Maracanazinho, em “Meu limão, meu limoeiro”, como registra a história da MPB. Convivia bem com a turma da bossa-nova e da jovem guarda, o que não era pouco naquela época em que as guitarras elétricas entronizavam o tropicalismo no gosto popular da rapaziada. “Sá Marina”, “Nem vem que não tem”, “País tropical” e o citado limoeiro foram alguns dos grandes sucessos do sorridente Simonal, negro no meio dos brancos, o outro lado da moeda do sisudo Milton Nascimento, que despontou na época e preserva seu lugar até os dias atuais, como também Jair Rodrigues.

Mas Wilson Simonal era o máximo, tinha um quê de Roberto e Erasmo na alienação política, no descompromisso com a juventude que peitava a ditadura, levava porrada e eventualmente se exilava – Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré etc etc etc. Ocupava espaço generoso no cenário musical pelo valor próprio e pelo absoluto conformismo com o que se passava no Brasil de Médici, do slogan “Ame-o ou deixe-o” a empurrar para o exterior os insatisfeitos e os perseguidos. Simonal era um “menino bom”, como Ivan Lins, que não tentava influenciar a juventude com ideias exóticas, como Gonzaguinha, por exemplo.

Eu era repórter do “Correio da Manhã” quando recebi a pauta para uma entrevista coletiva de Simonal, num amplo apartamento na Zona Sul carioca. Estava no começo da carreira, cobria os festivais internacionais da canção dirigidos por Augusto Marzagão e tinha estado no Maracanazinho na célebre noite do coro dos 35 mil espectadores. Como todo carioca daquele período, conhecia e era fã de Wilson Simonal, por isso rumei feliz e contente para a coletiva.

Na espaçosa sala do apartamento os repórteres encontraram toda a parafernália característica das filmagens: refletores, rebatedores, microfones suspensos, câmeras bem posicionadas. Acomodamo-nos onde nos indicaram e entrou na sala o cineasta Domingos de Oliveira, para nos explicar que a entrevista seria para o filme “É Simonal”, que dirigia e seria lançado ainda naquele semestre. Dito isto, saiu de cena e entrou o astro, sorridente, braços abertos, saudando “a imprensa livre do Brasil”. Era deboche, claro, mas soava falso demais na voz de Simonal, que nunca abrira a boca para comentários como aquele. Todos rimos e fizemos a entrevista, filmada por duas ou três câmeras e enriquecida por atores menores no papel de repórteres também.

Foi a única vez que estive frente a frente com Wilson Simonal e confesso que sua declaração fora de propósito na filmagem abalou a simpatia que tinha por sua incomparável figura. Nenhum artista, fosse cantor, ator, atriz, compositor, brincava com política naquele tempo. Ou era ou não era, não havia espaço para dubiedades. Por isso não senti como traição a denúncia de que Simonal havia mandado torturar seu contador, como estourou na imprensa censurada que transformou o caso em denúncia de tortura dentro do Dops carioca, coisa jamais admitida pela polícia e pelos militares.

Na sequência, surgiram as ligações de Simonal com agentes policiais e suspeitas de colaboração com a ditadura, através da delação. Relações escusas entre artistas e a repressão política não eram propriamente uma novidade: desde os tempos de César de Alencar na Rádio Nacional falava-se de colaboração entre o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo e o mundo artístico. O contador que trabalhava para Wilson Simonal contou o sequestro por agentes civis e a confissão de roubo sob tortura no prédio do Dops e os jornais deitaram e rolaram, até porque os censores, estranhamente, não cortaram uma linha, uma vírgula. A ditadura mostrou o caso como questão pessoal e não institucional.

Assim, Wilson Simonal viu ruir, em semanas, todo o prestígio construído em anos e anos de trabalho sério, dedicado e plenamente aceito pelo público. Diz a voz das ruas que delação é covardia que não se perdoa. Delação e tortura, menos ainda. E em tempos de perseguição política nem pensar. Como era possível Chico, Caetano, Vandré, Gil terem de sair do país e Simonal compactuar com os procedimentos de que eles foram ou seriam vítimas? Uma coisa é cantar “o amor é o meu país”, como Ivan Lins, notório alienado, outra bem diferente é ser amigo dos canas e usá-los para torturar um chefe de família pobre como a imensa maioria dos admiradores de Simonal.

O público se identificou com o contador, ninguém deu razão a Simonal. A imprensa viu no episódio a chance de denunciar que havia tortura na ditadura, o regime usou a mídia para fingir que não admitia esse tipo de comportamento. Mas nenhum policial foi punido, o contador não foi indenizado e só Wilson Simonal saiu perdendo. Perdeu por sua própria falta de sensibilidade política, por se congregar com torturadores, por não se arrepender em público do incrível deslize que cometeu.

Alguns anos mais tarde, já sobrevivendo em São Paulo e em precária situação profissional e pessoal, Wilson Simonal deu entrevista a José Trajano, hoje na ESPN Brasil, e atacou a imprensa, o público, muita gente, menos o Dops. O repórter registrou a presença de homens mal encarados na sala e, à saída, percebeu que estivera trancado a chave durante toda a conversa. A publicação da entrevista era prova de que o Brasil, lentamente, mudava. Simonal, infelizmente, não.

21

de
abril

Onde?

Quais coisas são de fato relevantes, e quais desimportantes? Quem são os medalhões que nos olham com altivez e soberba, e como se chamam os meninos e meninas, os velhos e todos os miseráveis que nos abordam nas calçadas imundas da zona nobre da cidade? Quantos dias, quantas horas, quanto tempo demorará até entendermos a inutilidade dos relógios, a ineficácia dos calendários? Onde está o Deus de tudo e de todos, que deixa seus filhos errantes pela vida, de tropeço em tropeço, de queda em queda, caminhando em direção ao nada, chegando a lugar nenhum?

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24

de
março

Deus me livre!

Camiseta encomendada por soldados israelenses na Faixa de Gaza, no corpo de um modelo. O texto é claro: "1 tiro 2 mortes", embaixo do desenho de uma palestina grávida no alvo. Autoridades israelenses viram mau gosto na iniciativa, mas eu vejo o absurdo de um povo perseguido desde o Velho Testamento, vítima da "catástrofe" na segunda guerra mundial, exibir a face genocida em sua manifestação mais primária.

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