Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

20

de
novembro

“O cinema é a maior diversão”

"Love story" sertaneja sai de Pernambuco e acaba em São Paulo.

O lançamento d filme “Lula, o filho do Brasil” no festival de cinema de Brasília, dias atrás, não encheu apenas a sala para 1.400 espectadores, mas também as páginas da imprensa, blogs, twitters, papos de botequim, filas de cinema e ainda a minha paciência com a conversa de que vai beneficiar a candidata do governo nas próximas eleições.

Não concordo com a tese segundo a qual um filme – qualquer um – seja capaz de determinar a sucessão presidencial. Nem que se chamasse “Dilma, a mãe do PAC” e mostrasse a trajetória de vida da ex-guerrilheira mais famosa do Brasil.

Segundo li, o filme conta a versão água-com-açúcar do Lula, censura livre, não tem Miriam Cordeiro, o caixão da primeira mulher caindo no chão no velório, nada capaz de suscitar indagações na plateia. Imagino que seja mais uma obra de emocionar e fazer chorar.

Ora, se essa fórmula tivesse o poder de conquistar corações e mentes por muito tempo, “Os dois filhos de Francisco” estaria em cartaz até hoje, batendo recordes de bilheteria. “Lula, o filho do Brasil” fará sucesso por algum tempo, sem dúvida, antes de se acomodar no seu cantinho na história do cinema brasileiro, ao lado das obras semelhantes.

Há quem anteveja a exibição do filme em telões pelo interior, em praças públicas, para influenciar o eleitorado, durante a campanha. A mim me parece que se fosse fácil assim, Lula estaria livre de alianças espúrias com o PMDB, até de prometer a vaga de vice ao partido.

Aliás, não vejo como campeã de audiência a chapa Dilma-Temer, basta olhar a cara de cada um para perceber que não falam a mesma língua e, juntos, são de dar azia em caixa de bicarbonato. Não há filme açucarado sobre Lula que mude a realidade.

Mas os que temem o aproveitamento político do filme têm razões sólidas, a começar pelas 18 empresas que financiaram a obra, quatro delas escondidas no anonimato, pediram até para não aparecerem nos créditos. Mesmo assim, são 14 logotipos na tela, entre bancos, empreiteiras e outras prestadoras de serviços ao governo.

Custearam o filme sem qualquer retorno, como fizeram questão de dizer os produtores. Nenhuma delas terá benefício fiscal ou tributário, tipo os previstos na Lei Rouanet, para não caracterizar o óbvio conflito de interesses.

Todas deram dinheiro em prol do cinema nacional, dinheiro dado de graça em troca tão-somente da sua marca projetada por alguns segundos. E quatro não quiseram nem isso, ficaram escondidas no mecenato desinteressado. Quem acreditará nisso?

No tempo do Médici, quando a ditadura não dava refresco, o governo botou uma grana preta no filme “Independência ou morte!”, com Tarcísio Meira como D. Pedro de folhetim. Era tempo do “milagre brasileiro”, versão antiga desta que vivemos hoje, e pagamos para festejar um certo “sesquicentenário”, aniversário de 150 anos da independência. Houve sessão especial do filme, entrou em grande circuito comercial e depois sumiu para sempre.

Como dizia Luiz Severiano Ribeiro, “o cinema é a maior diversão”. Os filmes, mesmo os melhores, dividem o público entre quem viu e gostou, quem viu e não gostou e até quem não viu e não gostou – como parece ser o caso de “Lula, o filho do Brasil”.

17

de
novembro

Tucanou

 

Ziraldo cria os cartazes da Feira da Providência desde tempos imemoriais Atravessou as duas décadas da ditadura militar debaixo das mais iradas acusações de adesismo, porque também fazia os anúncios da Caixa, ou do Banco do Brasil, a memória me trai no momento. Sempre foi um profissional, alheio às disputas políticas e ideológicas…pelo menos até este cartaz aí em cima, com o Zé Serra de batina carregando nos ombros um desavisado menino.

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8

de
setembro

Vão se lascar!

Quero reafirmar aqui que este blog é contra os senadores Eduardo Azeredo, Marco Maciel e o deputado Flávio Dinossauro, pelas bobagens que fazem. São a verdadeira vanguarda do atraso, com todo o respeito ao ex-deputado Fernando Lyra. A notícia boa é que ninguém controla a net.

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7

de
setembro

Marina está no jogo

  As duas ministras em 2007.

Se fuçarem as coleções de jornais, o amável leitor ou a gentil leitora verão no primeiro semestre de 2007 a discussão, primeiro discreta, depois aberta sobre a execução de muitas obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, lançado em janeiro daquele ano como primeira grande iniciativa do segundo mandato do presidente Lula. Um programa de 250 bilhões de dólares! Foi destaque até na imprensa européia, pela dimensão e pela demonstração de ousadia e coragem.


Listou-se uma infinidade de obras, muitas destinadas a dotar o país da infraestrutura essencial ao desenvolvimento econômico e social de seu povo. Saneamento básico, casas populares, estradas, portos, produção de energia, tudo no rumo da universalização dos serviços, da água encanada à luz elétrica.


Esta introdução que já se alonga é para lembrar como é antigo o embate entre Dilma Roussef e Marina Silva em torno das obras do PAC. Termoelétricas, hidrelétricas, estradas, assentamentos humanos, tudo implicava o aumento do passivo ambiental que a ministra do Meio Ambiente tentava reverter, ou pelo menos conter. A visão predominante no governo, contudo, era outra, Lula até chegou a reclamar da demora nos licenciamentos ambientais das obras programadas, e tanto foi feito que deu-se a Mangabeira Unger poder para projetar o desenvolvimento da Amazônia, e Marina Silva pegou suas plantinhas e voltou ao Senado.


Hoje, as obras do PAC vão mal das pernas, por motivos vários, inclusive superfaturamento, desvio de dinheiro público, emprego de material inferior em obras e também obstáculos ambientais. Mas verifica-se uma mudança notável no discurso governista, de duas semanas para cá: a preocupação ambiental entrou no rol das intenções sinceras. Esta inclusão começou de forma discreta, com a saída de Marina do PT, intensificou-se com seu ingresso no Partido Verde e vem aumentando desde que sua candidatura à presidência começou a ganhar corpo.


A discussão é boa, porque o modelo de desenvolvimento sustentável defendido por Marina e pelos verdes do mundo todo bate frontalmente com o que se pratica no Brasil desde o descobrimento. Aliás, parece que não aprendemos muito desde então, neste e em outros aspectos, mas esta é outra história. Para termos uma ideia pálida desta complexa questão, basta acompanhar a euforia do governo, dos governadores e do Congresso Nacional com o Pré-Sal. O país do biocombustível, dos carros flex, mergulha de cabeça, sem trocadilho, na busca de combustível fóssil a pelo menos cinco mil metros no fundo do mar, uma matriz energética condenada por poluente em todo o mundo desenvolvido e por escassa e cara a cada dia, a cada prospecção.


Os resultados econômicos do Pré-Sal, se acontecerem, virão entre 15 e 20 anos, quando cientistas preveem alternativas energéticas substituindo gradativa e progressivamente a gasolina e o querosene. Será que o Brasil estará condenado a uma busca economicamente duvidosa, além de ecologicamente infrutífera? Este debate constará da agenda da campanha presidencial do ano que vem, com certeza, até porque pela primeira vez a questão ambiental estará em primeiro plano e as atenções internacionais estarão voltadas para o processo sucessório brasileiro. Depois de um operário, o país terá a consciência verde global no poder?


Mas não só na agenda ambiental já se percebe o incômodo provocado pela provável candidatura de Marina Silva. Dia desses, Dilma Rousseff recebeu a visita de líderes evangélicos na sede do governo, para uma oração por sua saúde, que o país sabe combalida por um câncer. Os jornais e seus sites fizeram uma festa. A bispa Sônia Hernandez e seu marido, o também bispo Estevão Hernandez, que pagaram cadeia nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, apareceram em todas as imagens, como representantes da igreja Renascer em Cristo.


Também estavam na oração pela candidata petista o senador Marcelo Crivela, ex-bispo da Universal, e o deputado bispo Rodovalho, da Sara Nossa Terra, em Brasília. O pretexto foi a criação do Dia da Marcha para Cristo, celebrada em várias datas ao longo do ano em muitos estados. Mas se o pretexto era este, melhor teria sido orar com Lula para que tenha sucesso no seu fim de governo. Ou pelo vice José Alencar, que anda precisado e pedindo orações de todos.


Na realidade, oraram por Dilma porque Marina Silva é da Assembleia de Deus, a mais antiga denominação evangélica no país. Contrariamente às neopentecostais presentes no palácio, a Assembleia não segue a moderna doutrina da prosperidade, que promete aos seguidores recompensa financeira pelo dízimos e ofertas nos seus concorridos cultos. Certamente nesta seriedade de princípios estava a razão de Lula, às vezes, chamar ao seu gabinete a então ministra Marina para orar de mãos dadas por ele e pelo governo.

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3

de
setembro

Maldade 3

Mais de 70% dos brasileiros não têm acesso à internet, segundo levantamento feito por duas ONGs. De que lado você está, afinal?

3

de
setembro

Maldade 2

Dilma Rousseff disse que está livre do câncer. Zé Alencar ainda não.

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3

de
setembro

Uga, buga!

 

Frank, no www.cartunistasolda.com

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3

de
setembro

Moscas imortais

 

Fernando Affonso Collor de Mello é o mais novo imortal da Academia Alagoana de Letras. E daí?, perguntarão os céticos e os cínicos, se até Getúlio Vargas também foi imortal, e da Academia Brasileira de Letras! Que mal há em conceder ao ex-presidente da República honraria estadual, na verdade só um pouquinho mais provinciana do que o chamado “Petit Trianon” fundado por Machado de Assis?
 
A relação das obras de Fernandão é reveladora: “Reforma política e sistema de governo” possivelmente trata das mudanças que não aconteceram e do presidencialismo reafirmado sobre o parlamentarismo no famoso plebiscito de 1993. “O desafio de Maceió” é ficção política e não romance sobre um duelo acontecido na pacífica capital alagoana. “Maceió: 20 anos em 3” deve ser sobre o avanço da miséria durante a administração do jovem prefeito, em 1979.
 
 “Manual dos municípios” pode ser publicação da Telelistas, com endereço, telefone, fax e CEP das prefeituras de todo o país. “Brasil, um projeto de reconstrução nacional” tenho certeza de que é o ideário do extinto Partido da Reconstrução Nacional, o PRN que o alçou à presidência da República, dez anos depois. E “Relatos da História” relaciona contos infantis que Dona Léda, sua “dearest mommy”, lhe contava à noite, para chamar o sono do inquieto rebento.
 
Prolífico desse jeito, é de estranhar que Collor não ocupe cadeira da ABL, ao lado de José Sarney, outro beletrista de escol, autor de obras mais apreciadas na França do que no Maranhão, e do não menos festejado Marco Maciel, autor de obras ainda mais ignotas. Unindo as existências dos três personagens, fatos e circunstâncias curiosos:
 
Em 1979, Fernando Collor foi nomeado prefeito pelo governador de Alagoas, Guilherme Palmeira, e sucedeu José Sarney depois de uma campanha eleitoral em que só não o chamou de “bigodudo”. Marco Maciel foi líder do governo Collor no Senado e, logo mais, escolhido vice de Fernando Henrique, em 1994, depois que Guilherme Palmeira foi preterido em função de acusações de irregularidades na Comissão Mista do Orçamento. Como vemos, não mudam nem as moscas…
 
Bem, Guilherme Palmeira não virou imortal, mas, vivíssimo, descolou uma vaga de ministro e chegou a vice-presidente do Tribunal de Contas da União. Hoje, com de 70 anos, aposentou-se. Se tiver ânimo, pode entrar também para a Academia Alagoana de Letras e ser colega do antigo pupilo, com apoio dele, de Renan Calheiros e do terceiro senador pelo estado, João Tenório, suplente de Teotônio Vilela Filho, herdeiro político de Teotônio Vilela, que começou na UDN em 1948, bandeou para a Arena quando os militares extinguiram os antigos partidos e foi para a oposição em 1979, quando a ditadura começou a agonizar.
 
Morreu em 1983 não mais como usineiro reacionário, mas como entusiasta da eleição direta para presidente e amigo da cantora Fafá de Belém, musa das diretas. Mas esta é outra história. 

 

31

de
agosto

Ótica errada

 Foi aqui que a gripe pegou Uribe.

Essa gripe suína que pegou o presidente colombiano Álvaro Uribe só pode ter sido praga do Chávez e dos outros presidentes reunidos na Unasul, em Bariloche. Só Alan García, do Peru, e Tabaré Vásquez, do Uruguai, não bateram nele, os demais foram contra a utilização das bases por militares norte-americanos. A queixa geral é contra a presença militar ostensiva dos Estados Unidos no subcontinente. Quase ninguém condena o combate ao narcotráfico na produção, e não no consumo. No dia em que se inverter a ótica, nós é que mandaremos polícia e exército para ajudar norte-americanos e europeus.  

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21

de
agosto

O beijo e o escarro

 

Aloysio Mercadante e Lula: uma questão de ótica.

Esta é a terceira ou quarta tentativa de iniciar a crônica semanal. Não precisaria, necessariamente, tratar de política, podia escrever sobre o médico paulistano que assedia as pacientes de inseminação artificial, ou o motorista da van escolar preso mostrando vídeo pornô para a aluna de 12 anos dentro do veículo, ou algum tarado entre milhões. Mas, enfim, nada me parece tão imoral quanto a situação na qual o presidente Lula pôs o partido que ajudou a fundar e que o levou ao pedestal onde está, mirando tudo de cima como se fosse mesmo “o cara” a quem se referiu Barack Obama.
 
Escrevo na tarde da sexta-feira plúmbea e abumbrosa no Rio, os termômetros ao redor dos 22 graus, o que, para carioca, é inverno brabo. Assisti, pela manhã, ao patético discurso de Aloysio Mercadante com os motivos da sua não-renúncia ao posto de líder petista no Senado. Me deu pena dele e é sobre o que escreverei.
 
Mercadante continua acreditando no partido e no Lula, um erro duplo e fatal. Seu mandato expira no ano que vem e nada garante que terá legenda para disputar a reeleição. Não aceitou apoiar Sarney precisamente porque seu eleitorado não entenderia, mas a qualquer momento, até a convenção que definirá os candidatos, será descartado, com todos os dez milhões de votos que o elegeram em 2002 e que o PT considera seus. Afinal, foi um insubordinado no momento exato da exposição pública de Lula aderindo ao patrimonialismo e à falta de ética que sempre combateu. Se lhe negarem a legenda, de nada valerão seus votos e eleitores passados.
 
Mercadante pode tirar o cavalinho da chuva, como dizia minha avó, porque o PT negará a vaga para a reeleição, o primeiro sinal foi a Marta Suplicy ressuscitar dos mortos como possível candidata ao Senado, e Lula afirmar que isso seria ótimo. Ainda assim, na suposição de que ele consiga a vaga para tentar a reeleição, quem garante que não sofrerá na campanha o boicote dos “companheiros” fiéis ao líder máximo, o Stalin petista?
 
Creiam, é duro escrever essas coisas mesmo para quem nunca foi petista, mas, como eu, sempre foi de esquerda e a cada dia se decepciona mais com o que se passa na tela nacional. Aloysio Mercadante não é bobo, tem uma história impecável, o que não se pode dizer, por exemplo, de José Genoíno, mas essa é outra enfermaria. Sua postura no discurso desta manhã na tribuna do Senado é a de um homem comprometido até a medula com suas ideias, coisa rara nos dias que correm.
 
Foi em nome disso que ele capitulou ao apelo de Lula para continuar na liderança do partido no Senado, depois de haver anunciado a renúncia até pelo twitter, geringonça inventada para nos cobrar coerência. Pois Mercadante subiu e leu a carta escrita por Lula para fazê-lo desistir. Na véspera, não aceitara fazer o mesmo com a carta do presidente do PT, Ricardo Berzoini, que mandava os petistas do Conselho de Ética votarem a favor do Sarney.
 
Pobre Mercadante, viu a luta menor e não a maior. Não se submeteu à ordem do capataz, mas sucumbiu à chantagem emocional do fazendeiro. Ambas as cartas visavam ao mesmo objetivo: prendê-lo à liderança da bancada petista no Senado, mesmo depois de ele ter anunciado a renúncia e de haverem até cogitado seu sucessor. Paciente rebelde, Mercadante insiste que está saudável, embora seus pares no Senado detectem os sinais da doença que o vitima: ingenuidade política.
 
Sua situação me remete aos “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos, para os quais peço sua detida atenção:
 
“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
 
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
 
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
 
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
 
A não seguir os conselhos do poeta, mais dia, menos dia, Aloysio Mercadante saberá da sua substituição por um repórter furão ou pela notícia estampada na primeira página de algum jornal.

 

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