Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

5

de
novembro

Reflexões sobre a violência carioca

O helicóptero da polícia atingido pelo tráfico no Morro dos Macacos. 

Na volta das merecidas e jamais extensas férias, peço a atenção dos amigos para a matéria abaixo, que escrevi a propósito da escalada de violência no Rio de Janeiro em meados do mês passado, que, lamentavelmente, segue atual.

“Há uma grande bomba atômica no Rio de Janeiro que tentam esconder, mas que dá sinais de que está pronta para explodir, como agora”, garante sem meias palavras a radialista Verônica Costa, três vezes vereadora eleita por jovens da periferia.
 
“Você vê meninas de 13 anos – uns bebês – grávidas, com outros bebês na barriga, vê garotos de 15 anos que dizem abertamente ‘morrer, para mim, é lucro’. Não têm autoestima, nenhuma perspectiva de futuro, e ninguém faz nada, nem escola, nem governo, ninguém está preocupado com eles”, queixa-se.
 
Baseado no mesmo estrato social que a ex-vereadora, mas com objetivos diferentes, MC Leonardo, presidente da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, aponta uma solução tão simples quanto polêmica:
 
“Tem que legalizar as drogas. O que você não consegue conter tem que regulamentar. É como o aborto, não adianta proibir. Se liberar as drogas, daqui a 50 anos meus netos vão dizer ‘cara, naquele tempo tinha fuzil na favela, tinha criança armada’. O problema é que a legalização vai contra interesses mais fortes, o comércio de armas”, analisa.
 
Ao mesmo tempo em que se confessa abismado, MC Leonardo atribui o cenário dos últimos dias ao que considera erro estratégico “de tanta política de ‘caveirão’ e de blindado subindo as favelas”.
 
“A polícia deixa um rastro de insegurança e de prejuízo na comunidade, comércio fechado, escolas sem aulas, população com medo”, resume. “E pior é que esta não é uma situação do Rio de Janeiro, é nacional, é internacional. Os maiores consumidores de drogas são os Estados Unidos, que são contra a legalização porque interessa alimentar a guerra do tráfico, as armas de um lado e de outro”.
 
Verônica Costa concorda e joga mais lenha na fogueira da discussão: “Eu acho isso tudo um escândalo internacional. Há pouco tempo um atirador de elite da polícia acertou a cabeça de um sequestrador ali mesmo em Vila Isabel e a população aplaudiu. Agora derrubaram um helicóptero e a polícia promete vingança. E no meio dessa escalada, as pessoas estão preocupadas com Copa do Mundo e Olimpíadas no Rio”.
 
Coordenador do Programa de Controle de Armas da organização não governamental Viva Rio, o sociólogo Rangel Bandeira, considera imprescindível rever o modelo do combate à violência, a partir das Forças Armadas e das polícias, “dois setores da sociedade que não foram democratizados depois da ditadura”.
 
“O que está por trás desta crise que já dura 25 anos é a escalada armamentista, resultado da facilidade com que as armas pesadas chegam ao narcotráfico. A Baía de Guanabara é um shopping noturno, lanchas levam todo tipo de contrabando para as favelas. Onde está a Polícia Federal? Não trabalha à noite. E a Capitania dos Portos da Marinha? Jogando vôlei”.
 
Rangel lembra que em 2005 a CPI das Armas da Câmara dos Deputados apurou que 68% das armas pesadas apreendidas com bandidos tinham origem em oito lojas, mas nada foi feito. “O responsável pelo comércio de armas no país é o Departamento de Fiscalização de Produtos Controlados, do Exército, que não fiscaliza nada porque não tem condições, mas não deixa ninguém fiscalizar. Por que?”.
 
Em depoimento à CPI, em 2005, um traficante de drogas preso admitiu que as armas estrangeiras “passeiam tranquilamente pelas estradas”, segundo o sociólogo. “Não tem polícia nem federal, nem rodoviária, nem Forças Armadas, nada. O que vemos é a compra de mais armamento e munição pelas polícias, mais desvio para os bandidos, mais corrupção. Enfim, mais do mesmo. E assim não se chegará a nenhuma solução”.

14

de
agosto

Tutti buona gente

 

Charge tirada de boletim@chicoalencar.com.br

23

de
junho

Quosque tandem?

Barack Obama voltou a falar de Lula. Foi na coletiva sobre a radicalização do quadro político iraniano, mas ele escapou pela direita e tratou da crise econômica mundial lembrando que "o presidente Lula é um homem de esquerda, mas se dá bem com todos os presidentes da América do Sul". Numa boa, acrescento daqui do meu canto, porque nos dias que correm Lula só pode ser considerado de esquerda por um colega norte-americano.

23

de
maio

Tem base?

 

Diretamente do cartunistasolda.blogspot.com.

22

de
março

Sábado de manhã

 

Reparei, na busca por um bombeiro hidráulico que desse jeito no chafariz particular em que se havia transformado minha torneira da cozinha, na quantidade de pessoas em cadeiras de rodas, carrinhos a motor, de bengalas comuns, bengalas canadenses, muletas de madeira, de metal, pobres, remediadas ou ricas, todas se cruzando em ambas as calçadas da Nossa Senhora de Copacabana no exíguo trecho de um quarteirão entre a Prado Júnior e a Belfort Roxo.


Era uma manhã radiante de sol, o primeiro sol do outono, a estação identificada com a velhice, o fim próximo. “No outono da vida”, diz-se de quem tem menos anos pela frente do que para trás, e talvez por esta singela razão a rua estivesse tão exuberante nestes aparelhos que ajudam as pessoas a se locomover entre as ditas normais.


Digo isso porque o conceito de normalidade é cada dia mais relativo, ambíguo, mais politicamente correto. Nos tempos da minha adolescência e juventude – não faz tantos outonos assim, creio –, não havia eufemismos para portadores de necessidades especiais: coxo, cego, manco, perneta, aleijado, surdo, mudo, gago, anão…cada defeito tinha nome próprio e endereço, a esquina onde fazia ponto para esmolar, a casa onde morava, todos sabiam. “É dobrando a esquina do ceguinho”, “Logo depois da casa do mudinho” e por aí iam as indicações.


Encontrado o bombeiro hidráulico, Edilson, na Viveiros de Castro, ao lado da padaria da esquina, comentei enquanto o levava para conhecer meu chafariz doméstico, “Sabe o que impressiona aqui em Copacabana? A quantidade de cadeiras de rodas, muletas, bengalas nas ruas”. “É muito velho”, ele explicou. “É, mas tem muito velho correndo no calçadão, muita velhinha tomando chope com o cachorrinho no colo. Tô falando é dos prejudicados…é gente demais, parece até que teve uma guerra”. Edilson passeou o olhar pela paisagem e justo naquele instante um sujeito de cadeira de rodas conversava com outro de muleta na esquina, atrapalhando a passagem de um terceiro que vinha da Nossa Senhora de Copacabana apoiado em duas bengalas canadenses.


Não disse nada ao Edilson porque ele não entenderia, mas em vista do que constatei neste curto e forçado passeio, acho que o funcionário do Detran de Brasília saiu direto daqui para delimitar tantas vagas para idosos e – vá lá! – cadeirantes nos estacionamentos públicos das superquadras do Plano Piloto.

28

de
fevereiro

Mundos flutuantes

 

Foto da exposição "Mundos flutuantes", no Sesi paulistano, feita por Haruo Ohara, que registrou o cotidiano de trabalhadores rurais japoneses em Londrina, no norte do Paraná.

5

de
fevereiro

A alma da Vila

Vila Isabel não tem nada de Noel Rosa, a não ser uma pracinha mínima, um busto meio escondido e umas lojas e bares na 28 de Setembro, “principal artéria do bairro”, como se dizia antigamente. Em compensação, o jogo do bicho está presente em toda parte. Noel e o bicho são as duas marcas registradas da Vila. Foi lá, na Visconde de Santa Isabel com Barão do Bom Retiro, que outro barão, o de Drummond, fundou o primeiro jardim zoológico da cidade, em fins do século 19. Para sustentar sua criação, inventou o bicho, variação do jogo das flores que era moda no centro da cidade. Diz a lenda que o barão vinha na sua carroça e o povo perguntava “Que bicho vai dar hoje?” e ele respondia “Está aqui comigo”. Todos apostavam no cavalo, mas dava o porco que ele levava na parte de trás para vender no mercado.


No tempo de Noel, Vila Isabel era sinônimo de boemia, samba, carnaval e malandragem, como o Estácio de Ismael Silva, a Mangueira de Cartola e a Madureira de Paulo Benjamim de Oliveira. Pelo Boulevard 28 de Setembro passavam Lamartine Babo, Francisco Alves, Mário Reis e toda a nata da música popular daquele tempo. A Vila não tinha prédios, as casas em centro de terreno se alinhavam nas ruas arborizadas por onde os moradores circulavam entre o armazém de secos e molhados, a padaria, o açougue e a farmácia. As pessoas se cumprimentavam e no carnaval, a prefeitura montava o coreto da Rocha Fragoso, ponto de concentração das famílias de foliões.


Dizem que o carnaval da Vila ainda mantém algumas das características mais marcantes, mas duvido muito. Dia desses, estava no chuveiro e ouvi durante todo o banho o barulho de um helicóptero parado sobre a minha cabeça. Ouvi também a estridência de sirenes, e ao sair para o trabalho me deparei com o séquito policial contra o morro dos Macacos. A rua estava transformada num teatro de guerra urbana, numa Bagdá ou numa Hebron, e no entanto as pessoas não se alarmavam nem mudavam de calçada, apenas desviavam dos carros da Polícia Militar e dos soldados armados até os dentes como se fizessem parte da paisagem cotidiana.


Faz quatro meses que voltei à Vila, depois de quase 30 anos de vida em Brasília, e estou em fase de adaptação, em que tudo tem certo ar de novidade, embora eu já tenha conhecimento há muito tempo. É semelhante a uma viagem ao passado sem as coisas passadas, os bondes, as lotações, os táxis pretos, a cerveja Black Princess e o guaraná Princesa. Mas com muita deterioração, calçadas esburacadas, trânsito louco, pessoas se esbarrando sem nem mesmo perceber. Uma selva, assim como quase toda a cidade, quase todas as grandes cidades. A Vila de Noel é hoje a Vila de Martinho, da Unidos de Vila Isabel, do morro dos Macacos – o “17” cantado por Bezerra da Silva em referência ao jogo do bicho. E com isso volto ao início da crônica, ao samba e à contravenção que são a alma da Vila, sobrevivente a todas as mudanças trazidas pelo tempo.

7

de
janeiro

Quem sou, de onde vim e que dia é hoje?

A propósito da virada do ano, que nada mais é do que a contagem do tempo determinada pelo homem, o antropólogo Roberto DaMatta lembrou no Globo duas observações de rara profundidade: a de Thomas Mann “Demarcar o tempo é como passar uma faca na água” e a de William Shakespeare “Quando eu me pergunto quem sou, eu sou aquele que pergunta, ou aquele que não sabe a resposta?” A primeira parece mais simples, enquanto a segunda remete ao existencialismo e à metafísica, ao manjadíssimo “Ser ou não ser?”, do mesmo autor.


Há uma teoria interessante sobre o tempo passar mais rápido à medida que envelhecemos: diz que nosso cérebro registra, ao longo da vida, coisas, fatos, imagens, memórias enfim. Como o tempo não para, e as coisas, fatos, imagens etc se repetem, temos a sensação de que os anos passam mais depressa depois dos 40 anos, assim como costumamos dizer que na nossa infância a distância entre os aniversários parecia infinita. É só uma teoria, claro, para reflexões numa manhã chuvosa como as deste janeiro carioca.


Meu cunhado Almir surpreendeu os familiares na manhã do dia primeiro de janeiro exclamando diante do relógio: “Onze horas já! Esse ano tá voando!” Cairam todos na risada, mas a brincadeira embutia outra teoria interessante, a da inutilidade da medição do tempo pelo homem. Como pastor batista, meu cunhado conhecia o trecho da Bíblia onde se lê que “mil anos para Deus são como um dia”. Sabia que o tempo é convenção humana, muda ao sabor das conveniências políticas, sociais, religiosas. Os judeus contam os anos a partir de 7 de outubro de 3760 a.C., dia em que Deus criou o mundo, imaginam eles. Os chineses adotaram o calendário gregoriano em 1912, para questões civis e administrativas, mas mantêm o seu, resultado de “uma combinação de calendários solares e lunares em que cada ano segue a ordem do horóscopo chinês, em um ciclo de 12 anos”. Fácil, né?


Na questão shakespeareana, o buraco aparentemente é mais embaixo, porque não trata do tempo em si. Quando faço a pergunta, sou eu quem faz, ou quem faz é aquele que não sabe a resposta? Quando converso com alguém, raciocino sobre o que dizer, que expressões usar, como me exprimir. E, ao mesmo tempo, em outro plano penso sobre as intenções do interlocutor, onde quer chegar e o que pretende. A representação mais prosaica destes diferentes níveis de pensamento são o anjinho e o diabinho soprando conselhos no nosso ouvido.


Ao juntar as duas observações, Roberto DaMatta suscitou outra questão: quem sou no tempo em que estou? Ou ainda: quem penso ser no tempo em que imagino estar? Parece complexo – e é mesmo, a não ser para qualquer recém-nascido, que sabe muito bem o que quer e o que fazer para conseguir. E não tem preocupação com passado, presente e futuro.

3

de
janeiro

Na Faixa de Gaza

Do mesmo Miran.

3

de
janeiro

Pronto pra cruzar

 

Cartum de Miran, gênio do traço.

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